Brasília - A CPI da Terra quebrou ontem os sigilos bancário, fiscal e telefônico de nove madeireiros que atuam no sul e no sudeste do Pará, incluindo Vitalmiro Moura, procurado pela polícia sob acusação de ter encomendado o assassinato da missionária Dorothy Stang, ocorrido no último dia 12 em Anapu (PA).
A CPI tem três objetivos a respeito desse grupo de investigados, segundo o presidente da comissão, Álvaro Dias (PSDB-PR): saber se houve uma cotização entre fazendeiros da região para o pagamento dos pistoleiros que mataram a freira, conhecer as ligações telefônicas que possam ter feito entre si ou com os matadores e averiguar possível conexão entre a grilagem de terras na região e as fraudes contra a antiga Sudam (Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia).
''Com essa medida passamos a investigar um elo entre o crime contra Dorothy e a Sudam. Pedimos para reforçar a assessoria técnica da CPI'', disse o senador. O relator da comissão, João Alfredo (PT-CE), agenda viagem ao Pará para que a comissão ouça 17 pessoas, incluindo os fazendeiros. Em depoimento reservado prestado à comissão em maio de 2004, a própria missionária havia levantado a conexão entre a grilagem e a Sudam. Declarou aos integrantes da comissão, em audiência realizada em Altamira (PA), que 17 madeireiros que disputavam terras com assentados em Anapu haviam tomado mais de R$ 100 milhões em empréstimos da Sudam. O dinheiro teria sido aplicado indevidamente, segundo denunciou a missionária.
Dois dos madeireiros que tiveram os sigilos quebrados (Regivaldo Pereira Galvão, o ''Taradão'', e Laudelino Délio Fernandes Neto) são réus na mesma ação movida pelo Ministério Público Federal contra o deputado federal Jader Barbalho (PMDB-PA) por supostas irregularidades na aplicação de recursos da Sudam. A ação tramita hoje no STF (Supremo Tribunal Federal).
O nome de Regivaldo Pereira Galvão e seu apelido também foram mencionados várias vezes pela irmã Dorothy no depoimento à CPI, num outro depoimento que prestou à Polícia Federal do Pará em outubro último e em cartas que enviou para órgãos do governo federal por meio da Procuradoria da República em Belém.
Outro fazendeiro que teve seus sigilos quebrados é Décio José Barroso Nunes, o ''Delsão''. Ele chegou a ser preso sob acusação de ter mandado matar em 2001 o presidente do sindicato dos trabalhadores rurais de Rondon do Pará, José Dutra da Costa, o ''Dezinho'', mas acabou solto e responde ao processo em liberdade.
Também teve seus sigilos quebrados o presidente do Sindicorte (Sindicato Paraense da Pecuária), Francisco Alberto de Castro, que deu declarações à imprensa e co-assinou uma nota com críticas ao governo federal por causa da criação das reservas extrativistas no Pará.

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