Os deputados federais da CPI do Narcotráfico, que estiveram em Ponta Grossa até ontem, vão pedir o indiciamento – possivelmente nos crimes de formação de quadrilha e desacato à CPI – do ex-secretário de segurança Cândido Martins de Oliveira, dos delegados Ricardo Noronha e Mário Ramos, e do investigador Mauro Canuto. Os quatro não compareceram para depor e comprometeram os trabalhos da comissão. Nos dois dias, 12 pessoas foram ouvidas, mas nenhuma delas trouxe revelações de impacto.
No saldo, o deslocamento dos deputados a Ponta Grossa gerou poucos avanços nas investigações do envolvimento de policiais com o crime organizado. O comportamento dos deputados nos dois dias em que permaneceram na cidade deixou claro que a subcomissão veio ao Paraná com a intenção de ouvir apenas a antiga cúpula da segurança pública do Estado e os três policiais de Ponta Grossa que são acusados de participação no tráfico de drogas.
Os delegados Ricardo Noronha e Mário Ramos, e o investigador Mauro Canuto justificaram suas ausências com laudos médicos. Na noite de segunda-feira, o relator da CPI, Moroni Torgan (PFL-CE) chegou a afirmar que uma junta médica iria avaliar os laudos apresentados pelos políciais. Ontem pela manhã, porém, a CPI desistiu da medida depois de receber um documento (laudo de comprovante de licença) da Secretaria de Administração confirmando os ‘‘tratamentos de saúde’’ de Noronha e Ramos. Canuto estaria internado numa clínica, recuperando-se de depressão.
‘‘Eles fugiram outra vez. Na verdade o documento revela que os dois estão dispensados apenas das obrigações funcionais e não de compromissos públicos’’, criticou. O policial civil Emílio Wzorek, afastado da chefia da 13ª subdivisão policial de Ponta Grossa também entregou um laudo médico para justificar sua falta na CPI e não prestou depoimento. O filho dele, Cássio (ex-delegado antitóxicos), foi ouvido na noite de segunda-feira e também deve ser indiciado, assim como o ex-superintendente Almir Troyner.
Ontem pela manhã, resignados em não poder ouvir os principais acusados de envolvimento com o crime organizado, e com a confirmação da desistência do ex-secretário de segurança, restou aos deputados ouvir os moradores de Ponta Grossa – denunciados à comissão através do disque-denúncia (veja detalhes ao abaixo). O único momento de tensão aconteceu no depoimento do empresário Joarez França Costa, o ‘‘Caboclinho’’.
Sob forte esquema de segurança (mais de 20 PMs fortemente armados), ‘‘Caboclinho’’ disse aos deputados que iria falar somente em juízo e que, na verdade, deveria ter sido convocado para depor na Comissão dos Direitos Humanos da Câmara. O deputado Fernado Ferro (PT-PE) não gostou do comentário e
perguntou ao empresário onde estariam os direitos humanos das vítimas que ele teria assassinado. Foi o suficiente para o advogado de ‘‘Caboclinho’’, Ronaldo Botelho, ficar em pé e, de dedo em riste, cobrar provas da acusação do parlamentar, chamando a CPI de ‘‘arbitrária’’ e ‘‘despreparada’’. O advogado foi expulso do auditório do Fórum pela presidente da subcomissão, Elcione Barbalho.
Torgan tem até 8 de junho para entregar o relatório final da CPI. Hoje, em Brasília, a comissão faz uma sessão de encerramento das diligências externas e, amanhã, a sessão do fim dos trabalhos. A primeira reunião com os 19 sub-relatores da CPI, informou o deputado, vai acontecer na próxima terça-feira. Torgan estima que no final de maio começará a redigir o relatório final, que deve atingir mais de mil páginas.
‘‘Estou um pouco frustrado porque no Paraná, por exemplo, só teremos as versões dos acusadores e eu gostaria muito de ter ouvido as versões dos acusados’’, disse.

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