CPI não convoca políticos e esvazia
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sábado, 12 de abril de 1997
Agência Estado de Brasília 
Passados 131 dias desde a sua instalação, a CPI dos Títulos Públicos passa para a opinião pública uma sensação de certo esvaziamento. Ou, como querem alguns, de que perdeu o rumo da investigação e está patinando. Esse tipo de sentimento talvez possa ser explicado pelo suposto acordo tácito dos integrantes da Comissão de não convocar os políticos para depor - os senadores relatores, os governadores e os prefeitos. Afinal, é difícil explicar para a opinião pública como é possível deixar de convocar aqueles que fizeram pedidos que se mostraram irregulares durante a investigação e aqueles que os acolheram como chegaram ao Senado.
O relator da CPI, Roberto Requião, nega a existência de um acordo tácito e garante que não existe nem esvaziamento e nem perda de rumo. Sabemos onde queremos chegar e vamos chegar lá, afirma. Requião diz que os resultados da CPI são visíveis. Para ele, a CPI desmantelou uma quadrilha que agiu em torno dos títulos para pagar precatórios, impediu que novas emissões fraudulentas de títulos fossem realizadas, desmascarou um mercado que era supostamente transparente e colocou em evidência o papel de bancos e fundos de pensão em toda a negociata.
Os bons resultados da Comissão, até agora, são reconhecidos por todos. Durante o seu depoimento, na última segunda-feira, o presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, disse que a CPI vai mudar a face do sistema financeiro nacional. Os elogios foram feitos também pelo presidente da Caixa Econômica Federal, Sérgio Cutolo, e do ex-superintendente da Fundação Embratel de Seguridade Social (Telos), Olival Mantovanele Netto, que também prestaram depoimento à CPI.
O senador Requião quer um tempo agora para organizar as idéias e a montanha de documentos que chegou à CPI dos Títulos Públicos. O senador Esperidião Amin (PPB-SC) concorda com a estratégia da pausa nos depoimentos. É preciso fazer o rastreamento de um conjunto de cheques que recebemos e que pode desvendar muita coisa, disse o senador catarinense, com uma dose de mistério. Um desses cheques já bateu diretamente num político: a mulher do deputado estadual pernambucano Oséas Moraes (PSB), Maria Paula Casé Moraes.
Cada cheque possui o seu próprio romance, que precisamos conhecer, ensina Amin. Nós sabíamos que uma certa Maria Paula Casé Moraes tinha recebido um cheque da SMJT, mas foram os jornalistas pernambucanos que descobriram que essa senhora é esposa de um deputado, afirma. Com a autoridade de quem já foi chefe da Polícia Federal, o senador Romeu Tuma (PFL-SP) tem a sua própria definição sobre o mesmo fato: Um cheque fala mais do que um cadáver. O comando da CPI vai propor a convocação do deputado Oséas Moraes e dos empresários Cláudio Antônio de Pádua e Roberto Viana, este último ex-secretário do ex-governador pernambucano Joaquim Francisco e participante de diversas campanhas eleitorais.
O rastreamento que Amin e Tuma estão propondo para ser feito agora pode levar aos famosos fundos de campanha, que seriam, na opinião de vários senadores, uma das principais razões da existência das emissões fraudulentas dos títulos estaduais e municipais. De acordo com essas interpretações, para as quais ainda não existem provas, os fundos de campanha foram alimentados de duas maneiras: pelos lucros obtidos por empresas laranjas durante as negociações dos títulos no mercado e por empreiteiras pagas por governadores e prefeitos com o dinheiro das emissões de títulos.
A CPI já sabe que, em pelo menos dois lugares, os recursos levantados com os títulos foram usados no pagamento de empreiteira: em Alagoas e em Campinas. Ao contrário do que alguns imaginam, a CPI não está tão interessada em saber se a corrente da felicidade tornou-se possível por causa da concordância de governadores e prefeitos ou se por bancos e fundos de pensão.
Um senador acha que essa questão dificilmente será resolvida. É como querer saber quem veio primeiro se o ovo ou a galinha, diz uma fonte. O que interessa à CPI agora é saber como o lucro dos laranjas foi distribuído ou a quem as empreiteiras que foram pagas com os recursos dos títulos ajudaram posteriormente.


