O economista José Carlos Alves dos Santos estava acossado pelas suspeitas de que seria ele o assassino da mulher, pela descoberta dos dólares na casa dele. Era acusado de tráfico de drogas, de prostituição e de estelionato - nenhuma dessas três últimas denúncias foram confirmadas. Nessa condição, decidiu denunciar a máfia do Orçamento. No dia 17 de dezembro de 1993, a revista ‘‘Veja’’ publica histórica entrevista com o ex-diretor de Orçamento do Congresso e da União na qual ele denuncia o então deputado João Alves e todos os que o cercavam na Comissão de Orçamento.
De um fôlego só, José Carlos acusou 21 deputados, dois senadores, três governadores, dois ministros e quatro ex-ministros de participarem de gigantesca operação para sugar recursos da União e inoculá-los em empreiteiras e nos cofres dos parlamentares.
Durante 96 dias, Comissão Parlamentar de Inquérito ouviu 71 pessoas, analisou contas bancárias, avaliou patrimônio, conferiu imposto de renda e comparou depoimentos. Propôs a cassação de 18 deputados, um suplente e um senador. Sugeriu que o Congresso continuasse a investigar outros 11. Seis deputados foram cassados, oito absolvidos e quatro renunciaram.
José Carlos denunciou o deputado João Alves (PFL-BA), vice-presidente da Comissão de Orçamento entre 1988 e 1989, e relator em 1990 e 1991, de lhe dar malas de dólares. Era pagamento de serviços extras prestados à corriola do Orçamento.
O ex-diretor do Orçamento delatou também o esquema que passava pelo Ministério da Ação Social (hoje Ministério do Bem-Estar Social). O dinheiro saía do Ministério a fundo perdido (que não precisa prestar contas) e era destinado a instituições assistenciais. Entre 1985 e 1992, José Carlos participou do Conselho Nacional de Serviço Social, instância vinculada ao Ministério da Ação Social que ajudava a escolher a quem repassar recursos.
Até a Constituição de 1988 só o Executivo podia determinar gastos ao Orçamento da União. Ao Congresso cabia apenas homologar o que vinha do Governo Federal. Aos parlamentares restava brigar por um tiquinho de verbas sociais e filantrópicas, 15 mil dólares por ano. Era pouco dinheiro, mas desde 1972 o deputado João Alves entretinha-se com a Comissão de Orçamento.
A Constituinte permitiu que os parlamentares fizessem sugestões ao orçamento na forma de emendas. O economista José Carlos Alves dos Santos era diretor da Comissão de Orçamento do Senado havia três anos. Período em que aprendeu o necessário sobre como fazer uso conveniente do poder que a Constituição entregara ao Legislativo no que diz respeito à manipulação de verbas.
As trapaças com o dinheiro da União, é bom que se diga, não começaram depois que o Legislativo passou a pôr o dedo no Orçamento. Antes disso, os lobbies e outras formas de influência atacavam os ministérios, instâncias com poder de preparar propostas do orçamento do ano seguinte.
Menos de dois meses depois do início das investigações da CPI, um bomba explodiu na casa de Ailton Reis, diretor da empreiteira Norberto Odebrecht em Brasília. Dezoito caixas de documentos e 68 disquetes foram apreendidos no banheiro da casa do executivo.

mockup