CPI investiga negócios de amigos de ministro
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domingo, 13 de novembro de 2005
Ricardo Brandt<br>Agência Estado 
São Paulo - Entre 2003 e 2004, cinco pessoas que têm ou tiveram relações próximas com o ministro da Fazenda, Antonio Palocci, tentaram viabilizar negócios em Angola, para aproveitar a maré de investimentos internacionais despejados nas obras de reconstrução do país, após 30 anos de guerra. A CPI dos Bingos está rastreando com especial atenção os investimentos feitos com apoio do governo brasileiro, informou um técnico que integra a comissão.
O mais bem sucedido dos cinco é José Roberto Colnaghi, que mantém negócios em Angola até hoje e se apresenta como amigo de uma importante figura do governo angolano, o ministro de Obras e Infra-Estrutura, Higino Carneiro. Colnaghi é dono do avião Sêneca que teria transportado, entre Brasília e Campinas, dólares vindos de Cuba para a campanha de Lula em 2002.
A Agência Estado apurou que entre 2003 e 2004 Colnaghi tentou fechar negócios com o governo angolano não só para as suas empresas, mas também para pelo menos outras quatro pessoas muito próximas de Palocci: Roberto Carlos Kurzweil, Rogério Buratti, Ralf Barquete (já morto) e Vladimir Poleto. Os três últimos foram assessores de Palocci na prefeitura de Ribeirão Preto.
Kurzweil é o proprietário da locadora que emprestou o Ômega blindado que teria sido usado para transportar, de Campinas para São Paulo, os dólares de Cuba. Ele também foi apontado, nesta semana, como intermediador que ofereceu a Palocci uma doação de R$ 1 milhão para a campanha de Lula em 2002, oferecida por dois donos de bingos que se apresentam como angolanos.
Por sua assessoria, Colnaghi afirmou que conheceu Buratti num vôo que vinha de Angola, em agosto de 2003, mas desconhece os outros três. Buratti conta outra história: diz que encontrou com Colnaghi e que outros empresários foram para lá em buscas de negócios, entre eles, Kurzweil.
Lógica da CPI - A CPI trabalha com uma lógica. Em novembro de 2003, em visita a Angola e outros países africanos, o presidente Lula prometeu que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) abriria linhas de créditos para empresários brasileiros investirem naquele país. A CPI busca saber se essa afirmação não tinha, nos amigos de Palocci, personagens previamente carimbados para estabelecer negócios com Angola.
A aventura angolana de Colnaghi vai bem. A CPI dos Bingos já sabe que a Asperbras, do empresário, fornece produtos para obras de uma grande empreiteira que participa da reconstrução de Angola. A assessoria dele confirmou que suas empresas fornecem equipamentos agrícolas e industriais para o país desde 2003.
O elo de Colnaghi com Angola, no entanto, vai mais longe. A CPI dos Bingos está investigando os passos que marcaram a tentativa, infrutífera, de reativar o pequeno banco de investimentos Equity, do Rio. Ele foi fechado em julho de 2002, que pertence ao Banco Prosper - já investigado por conta das relações com ex-assessores do ministro. A suspeita da CPI é de que, nas negociações, estariam envolvidos Colnaghi, como intermediário dos angolanos, e Barquete e Poleto, representando o Prosper. Uma testemunha ouvida pela CPI contou que o banco seria reativado numa parceria de Colnaghi e o Banco Regional do Keve, de Angola. O Keve confirma as negociações, mas nega que Colnaghi seja seu parceiro.
A testemunha ouvida pela CPI, até agora mantida sob sigilo, afirmou que Colnaghi tinha contatos dentro do governo de Angola e agia como intermediador de negócios. Segundo essa testemunha, o empresário chegou a levar empresas brasileiras para encontros com seu amigo, o ministro de Obras.
Buratti, que na época representava o Grupo Leão Leão, foi um dos favorecidos por Colnaghi. Ele contou que recebeu a promessa de conseguir contratos de R$ 70 milhões em obras, mas as conversas acabaram não chegando a bom termo. Segundo ele, havia uma possibilidade concreta de as obras serem acertadas por intermédio de um grupo português, o Somague, sócio da Leão Leão na concessionária de rodovias Triângulo do Sol, que já tinha uma base em Angola.
A reportagem da Agência Estado tentou, nas duas últimas semanas, conversar com o ministro Higino Carneiro, mas não conseguiu contato. O ministro Palocci também não se pronunciou.


