A CPI Nacional do Narcotráfico vai solicitar ao Ministério Público uma investigação de cheques emitidos pelo ex-delegado-geral da Polícia Civil João Ricardo Keppes Noronha para o deputado estadual Luiz Carlos Alborghetti (PTB) e para o delegado Luiz Fernando Artigas Junior. A CPI quer saber as ligações financeiras de Noronha com os dois. Num cruzamento de dados obtidos com a quebra do sigilo bancário de Noronha, a comissão descobriu alguns cheques depositados por Noronha. A conta devassada pela CPI é de nº 53.635, agência 3511 do Banestado. Noronha foi afastado do governo Jaime Lerner (PFL), acusado de envolvimento com o narcotráfico.
Para Alborghetti, teriam sido emitidos três cheques, em 1998 – nos dias 7 de maio, 4 e 18 de setembro – no valor total de R$ 12 mil. Para Artigas Junior, cinco cheques totalizando R$ 35 mil, todos emitidos em 1996. ‘‘Estávamos mantendo em sigilo o nome das 15 pessoas em que centramos nossas investigações, mas posso confirmar essas informações’’, disse ontem pelo telefone, de Ponta Grossa, o deputado federal Padre Roque Zimmermann (PT). Ele é o responsável pela elaboração do sub-relatório que apura o envolvimento de policiais e políticos do Paraná.
A Folha conseguiu contato com Noronha ontem. O ex-delegado-geral da Polícia Civil criticou o vazamento das informações e disse que não ‘‘se recordava’’ de ter emitido os cheques para Artigas Junior. ‘‘Com o Alborghetti tenho certeza que jamais fiz qualquer negócio. E, mesmo se eu tivesse emitido estes cheques, o Padre Roque jamais poderia fazer comentários sobre isso’’, disse Noronha. O ex-delegado avisou, em tom de ameaça, que qualquer informação a respeito das quebras dos sigilos bancário, fiscal e telefônico dele ‘‘vai ser objeto de processo judicial’’.
O delegado da Divisão de Policiamento do Interior, Luiz Fernando Artigas, pai de Artigas Junior, consultou a assessoria técnica da CPI, e confirmou que os cheques foram para o filho. ‘‘Fui informado sobre as datas de emissão dos cheques, e elas coincidem com a época em que meu filho organizou um congresso nacional de delegados em Foz do Iguaçu. O dinheiro pode ter sido repassado pelo Noronha quando ele presidia a Associação dos Delegados de Polícia do Paraná (Adepol) e certamente foi usado para pagar despesas do evento’’, justificou. Artigas disse que ainda hoje deve receber as cópias dos cheques que estão em poder da CPI.
O advogado de Alborghetti, Antônio Carlos Vianna, também negou o recebimento dos cheques. ‘‘Estamos acompanhando o desenrolar da CPI e não existe a possibilidade do deputado aparecer nos relatórios da comissão’’, assegurou. Vianna afirmou que Padre Roque está ‘‘falando muita bobagem’’ e que ele teria interesse ‘‘político-eleitoreiro’’ para denegrir a imagem de Alborghetti. O advogado garantiu que depois do encerramento da CPI vai processar o deputado federal pedindo reparação por danos morais. Vianna disse que o valor da ação será de R$ 3,6 milhões.
Padre Roque informou ontem que o relatório final da CPI deverá ser analisado pelos integrantes da comissão no dia 10 de agosto e, em seguida, será encaminhado à mesa diretora do Congresso e ao Ministério Público Federal. ‘‘A cada dia surgem novas coisas sobre o crime organizado. Não cabe a nós incriminar ninguém, por isso o relatório final será encaminhado ao Ministério Público’’, analisou Padre Roque.

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