As 1.198 páginas do relatório final da CPI do Narcotráfico da Câmara Federal, divulgado na madrugada de ontem, revelam que o Brasil está envolvido pela rede, fora de controle, do crime organizado. O relatório propõe o indiciamento de 828 acusados, espalhados por todo o Brasil e pelos principais centros de poder – ex-governadores, desembargadores, deputados e ex-deputados, prefeitos, vereadores, militares, juízes, empresários e assim por diante.
O dinheiro do narcotráfico alimenta e enriquece o sistema financeiro. O relatório estima que o crime organizado lava mais de US$ 50 bilhões por ano no Brasil. Produtores de cocaína da Bolívia e Colômbia não querem receber nos países o dinheiro da droga vendida às quadrilhas brasileiras. ‘‘Mandam a droga em consignação e preferem receber o dinheiro aqui mesmo para, posteriormente, proceder a lavagem do mesmo’’, revela o relatório.
A CPI descobriu mais de uma centena de empresas abertas no Brasil com dinheiro proveniente do narcotráfico e do crime organizado. ‘‘Este nível do tráfico é feito por pessoas que, geralmente, não têm perfil violento, com bom nível cultural e se escondem atrás de fachadas de empresas dos mais diversos ramos de atividade’’, comenta o relatório. Distribuidoras de alimentos, medicamentos e cigarros e grandes revendedoras de automóveis apontadas pela CPI seriam usadas para lavar dinheiro e legalizar cargas roubadas.
A CPI admite que, mesmo depois de quase dois anos de investigações e revestida de poderes excepcionais, conseguiu desvendar apenas uma parte muito pequena da rede. ‘‘Estas redes exploram vários ramos criminosos, ao mesmo tempo em que detêm negócios lícitos e incorporam à sua área de influência juízes, parlamentares, policiais e autoridades do Poder Executivo. Em alguns Estados, estiveram e estão próximas de tomar o poder político’’, sentencia o relatório. E admite: ‘‘A sociedade e o aparelho estatal brasileiros não estão preparados para enfrentar o crime organizado.’’
‘‘Para os que pensam que esta é uma afirmativa exagerada recomendamos lembrar que Hildebrando Pascoal (ex-deputado do Acre) preparava-se para vir a governar o Acre e que o Cabo Camata, por muito pouco, deixou de ser o governador do Espírito Santo’’, adverte o relatório. A CPI propõe o indiciamento de dois ex-governadores, Oleir Cameli (AC) e Manoel Gomes de Barros (AL).
O ex-general paraguaio Lino Oviedo, implicado pela CPI como suspeito de narcotráfico, ‘‘demonstrará que a acusação é uma manipulação grosseira’’ de inimigos, segundo seu porta-voz Carlos Galeano Perrone.

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