CPI expõe rede incontrolável do crime
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quinta-feira, 07 de dezembro de 2000
Paulo San Martin Agência Estado De São Paulo 
As 1.198 páginas do relatório final da CPI do Narcotráfico da Câmara Federal, divulgado na madrugada de ontem, revelam que o Brasil está envolvido pela rede, fora de controle, do crime organizado. O relatório propõe o indiciamento de 828 acusados, espalhados por todo o Brasil e pelos principais centros de poder ex-governadores, desembargadores, deputados e ex-deputados, prefeitos, vereadores, militares, juízes, empresários e assim por diante.
O dinheiro do narcotráfico alimenta e enriquece o sistema financeiro. O relatório estima que o crime organizado lava mais de US$ 50 bilhões por ano no Brasil. Produtores de cocaína da Bolívia e Colômbia não querem receber nos países o dinheiro da droga vendida às quadrilhas brasileiras. Mandam a droga em consignação e preferem receber o dinheiro aqui mesmo para, posteriormente, proceder a lavagem do mesmo, revela o relatório.
A CPI descobriu mais de uma centena de empresas abertas no Brasil com dinheiro proveniente do narcotráfico e do crime organizado. Este nível do tráfico é feito por pessoas que, geralmente, não têm perfil violento, com bom nível cultural e se escondem atrás de fachadas de empresas dos mais diversos ramos de atividade, comenta o relatório. Distribuidoras de alimentos, medicamentos e cigarros e grandes revendedoras de automóveis apontadas pela CPI seriam usadas para lavar dinheiro e legalizar cargas roubadas.
A CPI admite que, mesmo depois de quase dois anos de investigações e revestida de poderes excepcionais, conseguiu desvendar apenas uma parte muito pequena da rede. Estas redes exploram vários ramos criminosos, ao mesmo tempo em que detêm negócios lícitos e incorporam à sua área de influência juízes, parlamentares, policiais e autoridades do Poder Executivo. Em alguns Estados, estiveram e estão próximas de tomar o poder político, sentencia o relatório. E admite: A sociedade e o aparelho estatal brasileiros não estão preparados para enfrentar o crime organizado.
Para os que pensam que esta é uma afirmativa exagerada recomendamos lembrar que Hildebrando Pascoal (ex-deputado do Acre) preparava-se para vir a governar o Acre e que o Cabo Camata, por muito pouco, deixou de ser o governador do Espírito Santo, adverte o relatório. A CPI propõe o indiciamento de dois ex-governadores, Oleir Cameli (AC) e Manoel Gomes de Barros (AL).
O ex-general paraguaio Lino Oviedo, implicado pela CPI como suspeito de narcotráfico, demonstrará que a acusação é uma manipulação grosseira de inimigos, segundo seu porta-voz Carlos Galeano Perrone.


