CPI é antecipação eleitoral, diz Lula
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sexta-feira, 27 de maio de 2005
Fernando Rodrigues<br> Folhapress 
Tóquio - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva sugeriu ontem que a CPI dos Correios é consequência da antecipação do processo eleitoral no país. Segundo o petista, isso ocorre há muito tempo no país e ele não tomará ''medidas eleitorais'' que prejudiquem a economia. Essa avaliação foi produzida no início da tarde num encontro com o presidente de Portugal, Jorge Sampaio, também em visita a Tóquio. O brasileiro explicava ao colega português a situação atual no Brasil e fez um relato sobre a instalação da CPI. Lula estava com os governadores Germano Rigotto (PMDB-RS) e Lúcio Alcântara (PSDB-CE). Rigotto relatou que foi ''a primeira vez'' que o presidente falou da CPI dos Correios na sua frente nesta viagem.
De fato, Lula tem evitado comentar o assunto com a maioria dos membros de sua comitiva (que inclui também quatro deputados, um senador e sete ministros). Prefere tratar do tema por telefone com seus operadores políticos, que ficaram em Brasília.
Na conversa com Sampaio, ele citou a necessidade de ''deixar de lado as mediocridades políticas'', pois isso poderia ''comprometer os bons indicadores da economia''. E emendou: ''Agora, por exemplo, vai ser instalada uma CPI''. Lula explicou o caso de corrupção nos Correios. Disse ter ordenado à Polícia Federal investigar. Mas que, mesmo assim, o Congresso preferiu instalar a CPI.
Sem fazer uma crítica direta à oposição nem aos congressistas, o presidente brasileiro disse que sempre ocorre no Brasil uma antecipação do debate eleitoral para o ano anterior ao do pleito. Acredita ser uma tradição local. ''Ele não chegou a dizer que a CPI é eleitoreira. O que eu interpretei é que o presidente deu a entender que a CPI está sendo instalada por causa do processo eleitoral'', relata Rigotto para quem a CPI deveria acontecer, mas restringindo-se a trabalhos técnicos de investigação, sem uso político.
Lula tem tido um comportamento ambíguo sobre a CPI dos Correios nesta viagem. No meio da tarde, visitou uma estação de metrô em Tóquio. Seguido de perto por repórteres, negou-se várias vezes a falar sobre a investigação.
No final da tarde, descansava em uma sala do hotel Okura, esperando sua hora de discursar num encontro com empresários. Pelo mesmo ambiente passaram vários deputados, governadores e ministros. O vice-líder do governo na Câmara Beto Albuquerque (PSB-RS) tentou entrar no tema CPI dos Correios. Foi cortado pelo presidente.
Logo em seguida, Lula parece ter mudado de idéia. Fez um discurso cheio de referências indiretas à política brasileira para cerca de 300 empresários japoneses e 200 brasileiros. Ao falar sobre o país, lamentou o fato de ''muita gente em cargos importantes'' não ''pensar grande'': ''Muitas vezes, as pessoas conseguem pensar apenas de eleição em eleição''.
No que parecia ser um recado a algumas pessoas do governo que cobraram uma atuação sua mais arrojada para abafar a CPI, Lula disse: ''Não tomaremos nenhuma atitude, nenhuma atitude que possa significar tornar a economia brasileira vulnerável nem tampouco nenhuma medida populista que muitas vezes serve para eleger um candidato, mas afunda o Brasil em anos e anos de recessão''. A platéia o aplaudiu.
Lula hoje teve um dia cheio. Tomou café da manhã com empresários e reuniu-se com o imperador Akihito. Tem mostrado cansaço, assim como todos os integrantes de sua comitiva.


