Brasília - Indiciado ontem pela Polícia Federal (PF) por corrupção passiva e fraude em licitação, o ex-diretor de Contratação e Administração de Material da Empresa de Correios e Telégrafos (ECT) Maurício Marinho negou que participou de um esquema de arrecadação de propinas, livrou empresários e políticos e tentou assumir a condição de vítima. Marinho disse que a fita em que detalha o funcionamento de um dos mais azeitados esquemas de corrupção foi uma armação com motivação política. ''Se não fosse eu, seria outro funcionário'', disse.
Ele afirmou ao delegado Luís Flávio Zampronha de Oliveira que os supostos arapongas se apresentaram como representantes de uma empresa multinacional interessada em entrar no mercado brasileiro. Marinho afirmou que tinha o interesse em firmar uma parceria de trabalho que pretendia exercer depois que se aposentasse, daqui a dois anos: ''Era uma oportunidade de negócios para o futuro. Nunca se falou em valor. Só no final é que entregaram o dinheiro.''
O ex-diretor de Contratação e Administração de Material dos Correios não soube explicar por que um dos supostos arapongas teria lhe dado os R$ 3 mil, que, segundo um dos advogados dele, teria sido adiantamento de um trabalho de consultoria que prestaria à suposta multinacional. Ontem, Marinho revelou que pretende doar o dinheiro a uma instituição de caridade voltada para o combate ao câncer infantil.
O ex-diretor de Contratação e Administração de Material dos Correios declarou que não tem relação de amizade ou intimidade política com o presidente nacional do PTB, deputado Roberto Jefferson (RJ), com quem diz ter se encontrado, formalmente, três vezes - uma no Aeroporto Internacional de Brasília, numa festa de aniversário e a terceira ocasião, que não quis detalhar, com outras pessoas. Marinho acredita que pessoas que chegaram à sala dele devem ter se utilizado identidades falsas, mas citou dois nomes: ''Goldman'' e ''Vitor'', que, efetivamente, estiveram no Recinto. Só no último encontro, suspeita, é que teria sido feita a gravação, atribuída a Vitor, que só apareceu no local no terceiro encontro.
O ex-diretor de Contratação e Administração afirmou achar que, se for colocado frente a frente, terá condições de identificar os supostos arapongas. O advogado José Ricardo Baitelo acentua que Marinho não conhece o ''Comandante Molina'', mas não descartou a hipótese de um dos frequentadores da sala dele ter sido o capitão da reserva José Fortuna Santos Neves, da Polícia Militar de Minas Gerais.
Marinho prestou depoimento durante oito horas. O delegado insistiu que ele se utilizasse da Lei de Proteção às Testemunhas - a chamada delação premiada -para abrir o esquema de corrupção que a PF suspeita existir nos Correios e em outros órgãos do governo. O ex-diretor de Contratação não concordou e acrescentou que não tinha conteúdo para colaborar com as investigações.
Os advogados adiantaram que, portador de hepatite e diabetes, Marinho havia passado mal. Nas declarações, no entanto, o ex-diretor estava tranquilo e tinha um raciocínio concatenado, diferente do personagem que os advogados diziam enfrentar dificuldades emocionais. ''Fui levado pela confiança e iludido na boa-fé. Em nenhum momento, houve as coisas de corrupção nos Correios, que aparecem na fita divulgada. O que eu falei foi mais bravata. Disse coisas que não deveria dizer. Foi autopromoção'', admitiu. Ele insinuou que há uma orquestração política por trás da gravação, mas não sabe identificar a quem interessaria o escândalo.

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