A CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) dos Bancos, que será instalada hoje, será mais ampla que o anunciado inicialmente, com a apuração de fatos ocorridos antes da desvalorização do real. A estratégia do PMDB - que propôs a CPI e a comandará politicamente - é alargar o leque de fatos investigados, mas poupando o atual presidente do Banco Central, Armínio Fraga.
Por sugestão do líder do PMDB no Senado, Jáder Barbalho (PA), autor do requerimento da CPI, o ex-presidente do BC Gustavo Franco será chamado a depor. Franco deverá explicar irregularidades no mercado de câmbio ocorridas no final da década de 80 e investigadas na sua gestão, que resultaram em multas de US$ 500 milhões aplicadas pelo BC.
Jáder anunciou que o também ex-presidente do BC Gustavo Loyola pode ser chamado a esclarecer os critérios adotados no Proer (programa de socorro aos bancos, criado em 95). Segundo o peemedebista, a primeira fase da CPI vai se concentrar em depoimentos e análise de documentos, não em quebra de sigilos telefônicos e bancários.
A gestão de Fraga, no entanto, não será investigada. ‘‘Os fatos determinados (no requerimento da CPI) aconteceram antes da gestão dele’’, justificou o líder do PMDB. A CPI será comanda por dois homens de confiança do senador José Sarney (AP), um dos maiores caciques do PMDB. O relator (cargo mais importante) será João Alberto Souza (MA) e o presidente, Bello Parga (PFL-MA). O PFL, que teria direito a indicar o presidente, havia cedido o cargo aos tucanos. A bancada do PSDB rejeitava a oferta, mas o ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, ligou para o líder pefelista, Hugo Napoleão (PI), pedindo tempo para decidir.
Somente ontem à tarde, depois de conversar com o presidente Fernando Henrique Cardoso, é que Pimenta oficializou a rejeição da oferta. O PSDB também não vai indicar o vice-presidente. O cargo pode ficar com a oposição. Também por sugestão do PMDB, a CPI começará seus trabalhos ouvindo primeiro a versão do governo. Amanhã, depõem Fraga e o diretor de Fiscalização do BC, Luiz Carlos Alvarez.
A convocação dos dois será formalizada hoje na abertura dos trabalhos da comissão, mas seu depoimento já estava articulado entre o PMDB e o governo desde a segunda-feira. Depois virão os depoimentos mais polêmicos: do ex-diretor do BC Francisco Lopes e do controlador do banco Marka, Salvatore Cacciola.
O depoimento de Lopes, em cuja gestão ocorreu o socorro ao Marka, é um dos mais aguardados. A oposição deverá questionar se a saída de Lopes do governo teve relação com o episódio. O presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), confirmou que o ministro da Fazenda, Pedro Malan, havia pedido, em janeiro passado, o adiamento da sabatina de Francisco Lopes, então indicado para a presidência do BC. ACM disse que não soube o que teria motivado o pedido, já que não o atendeu.
Ontem, ACM defendeu a prisão preventiva do controlador do Marka, Salvatore Cacciola. ‘‘Se ele é louco, deveria estar no hospício. Se é ladrão, na cadeia.’’ Após os depoimentos de Cacciola, dirigentes e ex-dirigentes do BC, serão chamados diretores de instituições financeiras que supostamente teriam mudado de estratégia poucos dias antes da desvalorização do real, passando a comprar dólares.

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