CPI do Mensalão acaba sem incriminar ninguém
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sexta-feira, 18 de novembro de 2005
Christiane Samarco<br>Agência Estado 
Brasília - Com 24 horas de atraso, a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do ''Mensalão'' terminou ontem, com a apresentação informal de um relatório considerado tímido por não ter incriminado um único deputado nem tampouco acatado a tese do pagamento de mesada em troca de votos favoráveis ao governo na Câmara. O relator, deputado Ibrahim Abi-Ackel (PP-MG), leu o parecer contestado por parlamentares da oposição, antes mesmo de ser apresentado. Mas o fez numa sessão considerada fantasma, por ter ocorrido depois de o ''Diário do Congresso Nacional'' ter registrado o encerramento dos trabalhos da CPI à meia-noite de quarta-feira.
''Sinto-me um idiota e penitencio-me por ter acreditado que isso aqui seria sério'', protestou no plenário da CPI o deputado Gastão Vieira (PMDB-MA), comparando-se a três personagens de conhecidos escritores brasileiros: Eremildo, o idiota, do jornalista Elio Gaspari; a Velhinha de Taubaté, de Luiz Fernando Veríssimo, e Palhares, o Canalha, do jornalista Nelson Rodrigues. Passava das 16 horas e os deputados e senadores nem sequer sabiam se o inquérito estava encerrado ou se teriam ganho a sobrevida de um dia. Enquanto alguns parlamentares insistiam na coleta das assinaturas de deputados para prorrogar a CPI por mais 30 dias, o secretário-geral da Mesa Diretora do Senado, Raimundo Carrero, afirmava que o trabalho seria inútil porque a comissão estava morta.
Foi uma sessão de lamúrias em que não faltaram desabafos emocionados e mea-culpas pelo fiasco. ''É um horror, uma vergonha, mas não conseguimos as assinaturas necessárias para prorrogar os trabalhos e terminar a CPI com o mínimo de decência'', disse a deputada Zulaiê Cobra Ribeiro (PSDB-SP), ao revelar que estava ''jogando a toalha, exausta de tanta humilhação''. Diante da resistência do PT da Câmara em acatar a prorrogação, Zulaiê queixou-se dos maus-tratos dos petistas, a quem, em vão, pedira apoio na Câmara.
No mesmo tom, um dos mais atuantes na ofensiva de última hora para tentar esticar a CPI por pelo menos 30 dias, o deputado José Rocha (PFL-BA) demonstrava a decepção: ''Fico muito triste de chegar ao final sem uma conclusão, neste enterro lastimável da CPI.'' Mas foi a deputada Perpétua Almeida (PC do B-BA) quem fez a autocrítica mais profunda, em que ninguém foi eximido de culpa pelo final melancólico da CPI.
''Boa parte desta CPI está fazendo jogo de cena porque a verdade é que não houve interesse de parte dos aliados nem da oposição em investigar'', denunciou, ao propor que todos fizessem um exame de consciência. ''Sinto-me desde ontem (quarta-feira) como se estivéssemos acompanhando um velório, mas o fato é que todos nós erramos, e erramos feio'', confessou, para concluir: ''Se houvesse interesse real nosso, teríamos feito, corretamente, nosso trabalho nos quatro meses (do tempo regulamentar da investigação, que estava encerrado).''


