CPI desvenda ação da máfia no Brasil
Da Redação
As investigações em torno de Maurício Dabull o homem de muitos nomes e nenhum rosto, cuja existência foi revelada com exclusividade pela Folha de Londrina/Folha do Paraná e pelo jornal Correio Popular, de Campinas (SP), no mês passado colocaram a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico a um passo de identificar os elos da maior estrutura de sustentação do crime organizado já descoberta no Brasil. Esta estrutura envolveria três famílias da máfia italiana, a máfia libanesa e foi montada no Brasil a partir de uma mega-operação iniciada em 92, a chamada Operação La Banda, cuja existência só agora começa a ser revelada.
Hoje, a La Banda se ramificaria por centenas de empresas, controlaria o jogo clandestino e grande parte das casas de bingo e daria sustentação através de operações bilionárias de lavagem de dinheiro para dezenas de grandes quadrilhas organizadas que atuam no Brasil.
As investigações em torno desta estrutura chegaram a um ponto crucial na semana passada, em Maceió, quando a CPI encontrou os primeiros pontos de ligação entre o esquema de Maurício Dabull que também atua com os nomes de Alfredo Harice, Roberto Mendonça Júnior e Alexandre Lúcio Pires (leia texto nesta página) e o de Paulo César Farias, o PC, ex-tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello. O esquema de PC seria comandado hoje por seu irmão, o deputado Augusto César Farias (PPB-AL).
Um dos pontos de ligação entre os dois esquemas é a empresa Tigre Vigilância Patrimonial de Alagoas Ltda. Oficialmente, a empresa está em nome de Marcos Maia. Mas descobrimos tantas ligações entre ela e Augusto Farias que já não há mais como negar que ela pertence ao irmão de PC. Encontramos, inclusive, documentos pessoais de Augusto Farias na Tigre e estamos analisando disquetes apreendidos na empresa, onde existem provas de operações feitas por ele ali dentro, revela o delegado federal Paulo Lacerda, que está auxiliando a CPI nas investigações.
Lacerda afirma que a CPI decidiu realizar diligências na Tigre a partir de investigações que estavam sendo feitas para desvendar o esquema de Maurício Dabull. Aparentemente, Augusto Farias nem imaginava que tínhamos informações sobre a Tigre. Por isso, não se preocupou em limpar as pistas, conta. A Tigre seria uma das empresas utilizadas por Dabull para lavar dinheiro do crime organizado e, de acordo com Lacerda, foi denunciada ainda como envolvida com o tráfico internacional de armas. Mas sobre isso não encontramos provas, afirma.
A CPI também encontrou fortes indícios de que Maurício Dabull trabalhava diretamente com Paulo César Farias até 1996. PC teria entregue a Dabull vários cheques do Commerzbank AS, de Genebra, no valor de US$ 54 milhões, pouco antes de morrer. Este dinheiro teria sido transferido para Nova York, aos cuidados de Carolina Nolasco, e voltou para o Brasil como dinheiro limpo. Dabull, já com o nome de Alfredo Roberto Harice, teria investido parte deste dinheiro em empresas de transporte aéreo em Juiz de Fora, Minas Gerais. Segundo informações veiculadas pela revista Isto é, na semana passada, a Tigre fez uma reserva no Hotel Hilton, em São Paulo, em nome de Maurício Dabull, em novembro passado.
Máfia no Brasil
A ligação entre os dois esquemas aponta diretamente para o envolvimento da máfia italiana com o crime organizado no Brasil. A ligação de PC com a máfia italiana é investigada há quatro anos pela Polícia Federal e pela Interpol (leia texto nesta página). Já o esquema de Maurício Dabull, que começou a ser desvendado pela CPI nos últimos três meses, seria dirigido por três famílias da máfia italiana e teria fortes vinculações com máfia libanesa, especializada no tráfico de armas. Quando encontramos os pontos de ligação e cruzamos as investigações sobre os dois esquemas, descobrimos sua dimensão. Ele é muito mais forte e poderoso do que imaginávamos até hoje, garante o deputado federal Robson Tuma (PFL-SP), um dos parlamentares que integram a comissão.
A partir das conexões entre os dois esquemas, a CPI começa juntar as peças de um quebra cabeças que a Polícia Federal tenta elucidar desde a morte de PC Farias, em 96. Já está claro que existe uma estrutura internacional que sustenta o crime organizado no País e se ramifica por toda a América Latina, principalmente Colômbia e Paraguai. Ela funcionaria como o cérebro financeiro e administrativo das quadrilhas, afirma Tuma.
De acordo com o deputado, se a CPI for capaz de desmontar esta estrutura terá nocauteado 70% do crime organizado que atua hoje no Brasil. Os outros 30% fazem parte de sistemas independentes, que se auto-organizam em qualquer condição e têm que ser combatidos permanentemente pelos órgãos policiais, define.
A Operação La Banda
A chamada Operação La Banda, segundo informações que estão em poder da CPI, foi responsável pela montagem da mega-estrutura financeira do crime organizado que atua hoje no Brasil. Esta operação começou a ser montada em 92, quando o advogado argentino Luiz Felipe Ricca que mais tarde seria procurador das contas milionárias de PC no exterior aproximou Maurício Dabull e Paulo César Farias de dois representantes da máfia italiana, Afonso Caruana e Antonio Scampa.
A partir daí, sob proteção e orientação direta de três das principais famílias mafiosas a Bárbaro e Papalli, da Calábria e a Chenezia, de Nápoli os esquemas de PC e Dabull teriam se unido para assumir o controle financeiro do crime organizado no Brasil. O sistema financeiro é o oxigênio. Sem ele, o crime organizado não teria o poder que tem hoje, explica Tuma.
A operação recebeu então o nome de La Banda e começou a operar a partir de agências de turismo e câmbio. Um número ainda não quantificado de agências, mas que seguramente passa de 50, está sob suspeita de participar ou ter sido utilizada pelo esquema. Rastreá-las é uma operação complexa. Muitas delas, mudaram dezenas de vezes a razão social nos últimos anos, para despistar as investigações, conta Tuma.
Através das agências de câmbio e com a cumplicidade de grandes bancos já identificados em oito países, a La Banda montou uma estrutura capaz de limpar milhões de dólares por mês. O dinheiro sujo sai do Brasil através de operações a cabo realizadas por doleiros. Daí a importância das casas de câmbio no esquema. Muitas são montadas exclusivamente para este fim, diz.
Depois, o dinheiro percorre uma longa trajetória que envolve os bancos e volta limpo para o Brasil. Aqui é reorientado para atividades lícitas, investimentos e aplicações. Aí a administração financeira do crime organizado adquire a dimensão e a importância que tem hoje. O dinheiro emerge no mundo legal, cria grandes empresas e cidadãos acima de qualquer suspeita. Tem cacife para subornar e corromper o poder. É uma verdadeira economia paralela que nasce e floresce a partir do crime, sentencia.
Empresas e bingo
De 1995 em diante, as ramificações da Operação La Banda se estenderam para empresas de transporte aéreo, ônibus, jogos eletrônicos, hotelaria e construção civil estas últimas, especialidades da máfia italiana onde a lavagem de dinheiro pode ser feita com relativa facilidade. Muitas grandes empresas já existentes no setor teriam sido atraídas para operar com o grupo, através de associações ou transferência pura e simples de capital.
A CPI investiga particularmente um grupo de empresas, todas elas ligadas a quatro homens da máfia italiana que atuam no Brasil desde o início da década 90, e cujos nomes são mantidos em sigilo. Estas empresas deixaram pistas que estão sendo rastreadas em contas no Republic National Bank, de Miami, e na filial de Lucano (Itália), do banco suíço Union Bancarie et Privée. Em apenas uma destas contas, o grupo teria movimentado cerca de US$ 200 milhões só este ano.
Com a expansão de suas ramificações, o grupo assumiu parte importante do controle da lavagem de dinheiro no Brasil e passou a ser uma referência para este tipo de operação entre grandes quadrilhas organizadas de todo o tipo desde o roubo de cargas e caminhões até o tráfico de drogas e armas. O grupo teria vinculações ainda com o contrabando de ouro e pedras preciosas.
Os comandantes desta estrutura não estão diretamente envolvidos com as atividades criminosas. Mas são eles que dão sustentação ao crime organizado, lavando o dinheiro e o reorientando para negócios limpos dentro e fora do País. Por isso acabam mantendo uma relação direta com os chefes de todas as principais quadrilhas, desde Hildebrando Pascoal a Fernandinho Beira Mar, explica.
Apenas sob o comando direto de Maurício Dabull, a CPI tem informações de que trabalham mais de 300 pessoas. Algumas delas, como Carolina Nolasco, em Nova Iorque, ou Oto Werner, no Uruguai, originárias dos altos escalões de grandes instituições financeiras. As ramificações invadem quase todos os níveis do poder no Brasil, num processo semelhante ao que a máfia sedimentou na Itália e que só foi desvendado após a Operação Mãos-Limpas.
Nos últimos anos, uma parte deste grupo, ligada diretamente à uma das famílias da máfia italiana, a Sacra Corona, passou a comandar o esquema de bingos no país. Apenas um homem ligado a este grupo, que está sendo investigado pela CPI, foi responsável direto pela documentação e legalização de mais de 150 casas de bingo espalhadas pelo Brasil. Esta parte do grupo cuidaria também das ligações com os donos do jogo do bicho, que utilizam o esquema para lavar dinheiro. Um dos chefes diretos do grupo, de quem se suspeita ser responsável por lavar entre US$ 50 milhões e US$ 80 milhões por mês, seria o mafioso italiano Lino Rosário Laurichella.
Na semana passada, a Polícia Federal conseguiu identificar o contato do grupo com a máfia libanesa. As informações ainda são mantidas em sigilo. Sabe-se apenas que se trata de um homem cujo primeiro nome é Samir, que atua no bairro católico de Beirute, no Líbano, e que teria também nacionalidade brasileira que lhe permitiria entrar e sair sem problemas do Brasil.





