Documentos levantados envolvem rede de corrupção em 13 Estados brasileiros, oito países, máfias siciliana, libanesa e japonesa
Arquivo FolhaFORÇARobson Tuma: ‘‘Se as informações forem confirmadas, não vai sobrar pedra sobre pedra’’ e a CPI terá pelo menos um ano de trabalho pela frente

Correio Popular
De Campinas e Redação

Um dossiê com dezenas de páginas, documentos, pelo menos sete horas de depoimentos, extratos bancários e uma relação de nomes de instituições financeiras, empresas, empresários e políticos que estariam envolvidos no esquema bilionário de lavagem do dinheiro do narcotráfico e do crime organizado em 13 Estados brasileiros e oito países começou a ser investigado no final da semana passada pelo deputado Robson Tuma (PFL-SP), integrante da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico.
O dossiê, que pode ‘‘explodir’’ hoje na reunião da CPI, revela as contas bancárias, empresas e pessoas que seriam o elo entre a Conexão Campinas, o deputado Augusto Farias (PFL-AL), o deputado cassado Hildebrando Pascoal (sem partido, AC) e outras ramificações do crime organizado no País. E relaciona o esquema ao tráfico internacional de drogas e armas comandado pelas máfias siciliana, libanesa e com ramificações na Iakusa.
De acordo com o autor do dossiê, um informante não identificado, grandes instituições financeiras e empresas conhecidas no Brasil e no exterior estão envolvidas nas operações. ‘‘Trata-se de uma estrutura financeira paralela gigantesca para lavagem e remessas clandestinas de dinheiro ao exterior’’, afirma Tuma.
O cérebro financeiro desta mega-estrutura seria um homem conhecido como Maurício Radice, cujo nome ainda não foi confirmado por Tuma, e que utiliza pelo menos outras quatro identidades falsas e que circula com desenvoltura nos principais centros financeiros do mundo. Em apenas uma das contas bancárias reveladas pelo informante – uma conta seriada no Chase Manhattan Bank, em Nova York – Maurício teria movimentado mais de US$ 570 milhões entre dezembro de 98 e o final do mês passado.
Este dinheiro, originário de várias quadrilhas ligadas ao narcotráfico e ao crime organizado, teria sido lavado por ele desde o início deste ano e parte já retornou ao Brasil na forma de dinheiro ‘‘limpo’’. As informações do dossiê chegam à precisão de detalhes. Informam o número das contas, a hora e a quantia exata de depósitos milionários realizados em agências bancárias de Campinas, Curitiba, Londrina, Juiz de Fora, Maceió, Recife, Salvador, Nova York e Beirute.
Maurício, que segundo Tuma deverá ser um dos homens mais procurados pela CPI do Narcotráfico nos próximos dias, teria sido responsável pela montagem de todo o esquema de lavagem de dinheiro de PC Farias, ex-tesoureiro do ex-presidente Fernando Collor de Mello. Com o assassinato de PC, em 96, Maurício teria herdado o espólio desta rede financeira.
Daí em diante, ligado diretamente com grupos da máfia, passou a centralizar os esquemas financeiros das principais quadrilhas do narcotráfico e do crime organizado no Brasil. De acordo com o informante, qualquer grupo ou indivíduo que tenha grandes somas de dinheiro ilícito para lavar ou mandar ao exterior acaba passando pelo esquema de Maurício, que criou uma rede de corrupção sedimentada até no aparelho de Estado. ‘‘Se metade das informações forem confirmadas, não vai sobrar pedra sobre pedra. E a CPI terá pelo menos um ano de investigações intensas pela frente’’, garante Tuma.

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