O ajuste, ao contrário do crime, compensa. Depois de seis anos de aperto, o governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), inicia 2001 com uma perspectiva inédita para qualquer administrador público do País. Pela primeira vez, um Estado terá investimentos comparáveis aos previstos pela União. No total, São Paulo contará com quase R$ 7 bilhões em obras e serviços, valor equivalente ao que o governo federal, na prática, deve investir neste ano.
Embora essa rubrica do Orçamento federal tenha sido elevada pelo Congresso de R$ 12 bilhões para R$ 18 bilhões, a média de gasto realizado dos últimos anos não tem passado de R$ 8 bilhões. E há quem duvide, com todos os cortes previstos, de que a União gaste mais do que R$ 7 bilhões em obras. É quase a mesma quantia que será investida em obras públicas no Estado: R$ 2,8 bilhões entre recursos do Tesouro e de financiamentos privados e federais, mais R$ 4 bilhões que virão das empresas estatais e concessionárias de energia e estradas.
Na comparação com outros estados, a dimensão do investimento paulista fica mais clara. Em Minas Gerais, o Tesouro prevê investimentos de R$ 1,5 bilhão. Como o governador Itamar Franco é contra a privatização, o valor total não deverá ser muito maior.
Com a mesma convicção ideológica, o governo do gaúcho Olívio Dutra (PT) planeja investir apenas R$ 280 milhões. Também em situação precária, a prefeita da capital, Marta Suplicy (PT), terá de se contentar com R$ 700 milhões, quase 10% do que será investido no Estado.
A diferença pode ser melhor entendida quando se leva em conta a filosofia dos últimos prefeitos da capital. Mais preocupado com as obras, Paulo Maluf (1993-1996) gastou mais do que podia e deixou a dívida para seu sucessor, Celso Pitta (1997-2000), que ficou sem recursos para grandes investimentos, mas também não se preocupou em sanear as finanças.
‘‘O grande mérito de Covas foi acabar com esse círculo vicioso de deixar a conta para o sucessor’’, avalia o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega. Ao contrário, segundo Mailson, Covas inaugurou um ‘‘círculo virtuoso’’, de moralizar o Estado, reduzir a dívida e privatizar algumas áreas para atrair novos investimentos.
Tudo isso, ressalta o vice-governador Geraldo Alckmin, sem aumentar impostos ou deixar de pagar dívidas. ‘‘Na verdade reduzimos a alíquota de 172 produtos e serviços e estamos pagando R$ 280 milhões por mês para abater nossa dívida’’, anota Alckmin. ‘‘Apenas renegociamos contratos, privatizamos ou fizemos parcerias em algumas áreas e informatizamos a máquina. Em poucas palavras, moralizamos o governo.’’
Para Maílson, o sucesso do governo Covas ficará como paradigma na administração pública do País. ‘‘Trata-se do mais bem sucedido programa de saneamento público da história do Brasil’’, destaca. ‘‘Covas antecipou-se à Lei de Responsabilidade Fiscal e pôs um ponto final naquela dicotomia: ou você faz obras e deixa dívidas ou paga as contas e não faz nada.’’ Segundo ele, pela nova Lei Fiscal, os governantes serão obrigados a gastar só o que arrecadam. ‘‘Mas depois do Covas eles sabem que é possível arrecadar melhor para gastar mais e gerar novos recursos.’’

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