Covas reclama do assédio da imprensa
Um dia depois de divulgada a existência de células cancerígenas em sua meninge (membrana que reveste o cérebro e a medula espinhal), o governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), de 70 anos, afirmou ontem que está para morrer. Estou para morrer. Pode publicar no jornal, declarou, após participar de uma reunião do Programa Estadual de Desestatização (PED), realizada no Palácio dos Bandeirantes.
A frase foi pronunciada depois que o governador, ao sair do encontro, perdeu o equilíbrio, dobrando os joelhos até quase atingir o chão. Ele teve de ser amparado por assessores e colocado em sua cadeira de rodas. Isso, vão fotografando, me mostrem sendo carregado e acabado, protestou o governador, deixando o local sem falar com a imprensa.
Habitualmente, o governador Covas participa das reuniões semanais do PED sempre que há uma decisão importante a ser tomada. O secretário Estadual de Planejamento, André Franco Montoro Filho, que também preside o PED, afirmou que Covas demonstrou clareza de raciocínio e discernimento durante a reunião. Ele mostrou total e absoluta clareza de pensamento, com a mesma rapidez e nível de exigência que o acompanham há seis anos, afirmou o secretário.
A questão física da dificuldade de locomoção, na avaliação de Montoro, não impede Covas de continuar exercendo o governo. Para Montoro, ao tentar mostrar aos jornalistas que poderia andar, Covas simplesmente deixou claro que nada mudou. Ele é transparente e ao mesmo tempo tem uma grande força de vontade para vencer as dificuldades. Esse é o modo de ele resolver as coisas, é a marca do governo dele, disse Montoro Filho.
Desde que foi submetido a uma cirurgia para a remoção de dois tumores malignos um no reto e outro no intestino delgado em novembro, Covas vem apresentando dificuldades de locomoção e reclamando de frequentes dores de cabeça.
Na avaliação dos médicos que acompanham o governador, a contaminação do sistema nervoso central pelas células cancerígenas explica os dois sintomas. Covas passou o dia no palácio em reuniões e despachos internos.
De quinta-feira a sábado, de acordo com agenda divulgada no final da tarde de ontem por sua assessoria de imprensa, Covas viaja para quatro cidades para a entrega de moradias da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano do Estado de São Paulo (CDHU) e para a inauguração de obras.
A descoberta de um novo foco da doença, de acordo com o médico particular do governador, David Uip, representa a ocorrência de metástase, isto é, a contaminação de outros órgãos pelo tumor maligno de bexiga detectado em dezembro de 98. Mesmo assim, os resultados da ressonância magnética de corpo inteiro, realizada na sexta-feira, não indicaram a existência de tumores no local ou em outras regiões do organismo.
Ainda não há definição quanto ao tratamento que será adotado. Mas, segundo oncologistas, os dois únicos métodos disponíveis para um caso como o do governador são a quimioterapia e a radioterapia.





