Covas pode governar com a esquerda
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de outubro de 1998
Emanuel Neri e Cláudia Trevisan Agência Folha 
Entusiasmado com o apoio que recebeu de partidos de esquerda no segundo turno da sucessão paulista, Mário Covas (PSDB) confirmou ontem que, caso se reeleja, convidará PT, PSB e PPS para integrarem seu novo governo. Tenho consciência de que os votos que terei foram influenciados por esse apoio (da esquerda). É perfeitamente possível que haja gente de outros partidos (no governo), afirmou. Vou montar um novo governo levando em consideração essas coisas.
Covas pode convidar pelo menos PT e PSB para integrar seu governo. Há dúvidas entre os tucanos se o PT aceitará o convite. No PSB, um dos nomes que Covas gostaria de contar é o da ex-prefeita Luiza Erundina. Antes de votar, às 12 horas de ontem, em uma faculdade da rua Iguatemi, zona sudoeste de São Paulo, Covas afirmou que uma eventual presença do PT e do PSB em seu secretariado não muda o perfil social-democrata de seu governo. Não tem nada de frente de esquerda. Meu governo é do PSDB, afirmou.
A presença de partidos de esquerda, segundo ele, não fará com que ele perca suas características. Para ele, essa eventual coalizão em São Paulo não servirá para se contrapor ao governo de FHC. Vamos montar um governo com a dimensão que o povo deu, levando em consideração esse fato (o apoio da esquerda), afirmou. Mas será um governo sintonizado com o governo federal.
Covas afirmou que a aliança de FHC com Paulo Maluf não prejudicará seu relacionamento com o presidente. O Maluf o tempo inteiro vendeu a idéia de que o presidente apoiava ele. Eu nunca me incomodei com isso, afirmou. Covas diz ter ficado satisfeito com o nível de apoio que recebeu de FHC. Para mim era tão claro o apoio que nem precisava fazer mais uma gravação para dizer que me apoiava, disse, referindo-se à gravação feita por FHC depois de sua virada nas pesquisas.
Covas defendeu que os atuais governadores e os eleitos devem ser convocados por FHC para discutir o novo pacote fiscal. Sugeriu que o ajuste fiscal que o governo deve anunciar nos próximos dias seja feito sem que haja necessidade de aumentar os impostos. Gostaria que só fosse feito do lado das despesas, afirmou. Citou como modelo de ajuste fiscal o que foi feito por ele em São Paulo, onde houve cortes de despesas sem aumento de impostos. Mas o candidato afirma que o governo federal tem outras características.
Em São Paulo, conseguimos fazer um ajuste fiscal sem aumentar impostos. Pelo contrário: diminuímos, afirmou Covas. Mas a situação do governo federal não é igual, pois têm influências como a balança externa, o balanço de pagamentos e a dívida externa.
Durante todo o dia de ontem, Covas foi irônico ao comentar declarações feitas por Maluf. É um grampo? Maluf faz grampo? Não me diga, disse ao saber que seu adversário afirmara que tinha uma conversa telefônica grampeada que o comprometia. Também foi irônico ao saber que Maluf convocara a imprensa para dizer que estava sendo ameaçado. Ele está ameaçado é de perder, afirmou. É a última coisa que o Maluf podia dizer. Ameaçado por quem? Pelos amigos? Ele dá um lancezinho no meio da eleição.
Ao contrário do primeiro turno, Covas estava ontem bem mais descontraído. Chegou ao seu comitê às 11 horas para se encontrar com correligionários e conversar com repórteres. Na seção em que votou, foi aplaudido por eleitores que esperavam sua vez de votar. Depois de votar, Covas almoçou em um restaurante dos Jardins, região central de São Paulo. Estava acompanhado da mulher, Lila, e de assessores. Na saída, sorridente, disse ter almoçado frango - uma referência ao Frangogate, suposta irregularidade envolvendo empresa da família de Maluf.


