Costa Neto confirma uso de caixa 2 pelo PT
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terça-feira, 23 de agosto de 2005
Ranier Bragon e Sílvio Navarro<br>Folhapress 
Brasília - O ex-deputado Valdemar Costa Neto, presidente do PL, afirmou ontem na CPI do Mensalão que os R$ 6,5 milhões que recebeu entre fevereiro de 2003 e janeiro de 2004 das empresas do publicitário Marcos Valério Fernandes de Souza foram integralmente usados para pagar dívidas da campanha presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva - de quem José Alencar, do PL de Valdemar, foi candidato a vice. Para as eleições de 2002, involuntariamente recebi dinheiro não-oficializado do PT. (...) [o recurso] Foi totalmente gasto na campanha do presidente Lula, disse Valdemar, que é mais um dos que afirmam que houve uso de caixa dois na campanha presidencial do PT.
Segundo o ex-deputado, o dinheiro quitou dívidas contraídas com a confecção de material de campanha da coligação Lula-José Alencar (PL) distribuído na região metropolitana de São Paulo, no segundo turno das eleições. Valdemar afirmou que Delúbio Soares, ex-tesoureiro do PT, teria dito: Faz a despesa que depois acertamos. Em outro momento do depoimento, Valdemar foi mais direto: Pendurei tudo.
Encomendei material para toda São Paulo e região metropolitana. Com fornecedores do PT. Foi onde investi todo o dinheiro. A única chance que me restava era o Lula ganhar a eleição, afirmou Valdemar, se referindo ao fato de que sua legenda não havia conseguido atingir o número de votos mínimo exigido para obtenção do tempo de TV e de recursos do fundo partidário. Isso só foi resolvido após a fusão com dois partidos nanicos.
A maioria dos integrantes da CPI considerou a versão de Valdemar pouco crível. Ele repetiu o que já havia dito e falou sobre coisas que já sabíamos. O que devemos é confrontar a fala com a investigação em cima de documentos, avaliou o senador Amir Lando (PMDB-RO), presidente da CPI. Os depoimentos vão no sentido de que o dinheiro ia para a campanha. A história do mensalão parece mesmo ser uma armação criada para jogar um vendaval sobre a Câmara, disse o senador governista Sibá Machado (PT-AC).
O depoimento do presidente do PL também deu a entender que o ex-ministro José Dirceu (PT-SP) saberia do esquema montado entre Delúbio e Valério para arrecadar recursos para o caixa do PT. Segundo Valdemar, Dirceu disse a ele em meados de 2003, quando chefiava a Casa Civil da Presidência, que Delúbio estava viabilizando o dinheiro e que o PT iria honrar todos os compromissos assumidos com ele, Valdemar, durante a campanha presidencial.
Valdemar é acusado pelo deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) de ser um dos integrantes do suposto esquema do mensalão. Apesar de reconhecer o uso de caixa 2 na campanha de Lula, ele procurou blindar o presidente, o vice, José Alencar, e o PL.
Não quero ser um problema para o presidente Lula, disse. O presidente Lula sabia do acordo, que era eminentemente político. Evidentemente que o Lula tinha conhecimento disso, mas o Lula jamais negociou comigo, completou. Não quero criar laranjas. Sou o único responsável pela encomenda de material e pelos pagamentos efetuados, disse.
Ele também exclui Dirceu das negociações financeiras. Insisti nesse recursos sempre com o Delúbio. Zé Dirceu nunca discutiu comigo valores. O Dirceu queria que fizéssemos um acordo em cima de compromisso de participar, de administrar o governo junto com eles.
Ele citou também o caso do publicitário Duda Mendonça, que assumiu ter recebido via caixa 2 o pagamento por serviços prestados para a campanha do PT em 2002, para dizer que não é a única pessoa que está envolvida em pagamentos não-contabilizados.
A CPI do Mensalão investiga a suspeita de que o PT pagava mesada a deputados da base governista em troca de apoio político. Valdemar teria recebido R$ 10,8 milhões das empresas de Valério, o suposto operador do mensalão, embora assuma apenas R$ 6,5 milhões.
Costa Neto disse ainda ontem ter certeza que o mensalão nunca existiu e seria uma fantasia de Jefferson para obter repercussão popular. O envolvimento do PL no mensalão é uma fantasia do Roberto Jefferson. O partido que tem o vice-presidente da República não precisa de mensalão para votar com o governo, disse.
No depoimento, o ex-deputado diz ter recibo de apenas R$ 1,7 milhão dos R$ 6,5 milhões. Apesar disso, não quis nominar quais fornecedores teria pago, afirmando apenas que eles trabalhavam para o PT. Ele negou também que tivesse conhecimento sobre a empresa Guaranhuns, que seria a intermediária do dinheiro de Valério ao PL.


