Curitiba – O temor de grandes empreiteiras, diversos políticos e de pelo menos três grandes partidos se concretizou ontem, durante os interrogatórios do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa e do doleiro Alberto Youssef. Em audiência realizada em Curitiba, na 13ª Vara Federal Criminal, os dois prestaram esclarecimentos sobre desvios de recursos públicos das obras da refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e deixaram claro a existência de pagamento de propinas para políticos e partidos por meio de um grande esquema que funcionava dentro da Petrobras, com a participação de diversos operadores, entre eles agentes públicos, empreiteiras e outros diretores da estatal, que seriam liderados por políticos do alto escalão.
Os nomes dos "chefes" do esquema não foram citados por Costa e Youssef porque são pessoas que possuem foro privilegiado e, neste caso, só podem ser investigadas no âmbito do Supremo Tribunal Federal (STF). Por outro lado, os réus reforçaram que este esquema atuou diretamente no financiamento de diversas campanhas de partidos nas eleições de 2010. A propina para os partidos era dividida na base de 1% para um e 2% para outro – sobre valores superfaturados de contratos da Petrobras com empreiteiras e fornecedores. O "adicional" seria repassado a partidos políticos, deputados, governadores, senadores e diretores da estatal. Vazamentos à imprensa da delação premiada de Costa ocorridos em setembro apontam que alguns dos partidos beneficiados do esquema seriam PT, PMDB e PP.
Costa e Youssef relataram ainda que o esquema de desvio de dinheiro também ocorria em outras diretorias da estatal petrolífera. Os demais diretores envolvidos seriam Nestor Cerveró (Internacional); Renato Duque (Engenharia e Serviços) e José Luiz Zelada (Internacional), que também atuariam a mando de agentes políticos. Costa também citou os nomes de Sérgio Machado, presidente da Transpetro; e de José Eduardo Dutra, diretor atual da Petrobras e ex-presidente da BR Distribuidora.
"Eles (Costa e Youssef) deixaram claro que o esquema beneficiou ao menos três grandes partidos. Explicaram por meio de provas que estão nos autos (planilhas, documentos, interceptações telefônicas) que existia uma fortíssima atuação destes agentes políticos dentro da Petrobras. Os depoimentos foram realmente estarrecedores. Os dois não se encontraram antes dos interrogatórios e, mesmo assim, os depoimentos foram totalmente complementares. Falaram sobre notas fiscais, quem pagava, para onde o dinheiro era transferido, entre outros pontos que reforçam as denúncias", disse Antonio Figueiredo Basto, advogado de Youssef.
Segundo ele, os dois réus confirmaram integralmente a acusação feita pela força-tarefa do Ministério Público Federal (MPF). "O Costa afirmou que havia esquema de grupos atuando na Petrobras, cada um com seus interesses e com seu operador", completou Basto. Ainda conforme os depoimentos, as empreiteiras e fornecedores estariam sujeitos a quebra de contrato se não aceitassem realizar o pagamento de propina. Costa também confirmou que foi indicado ao cargo na Petrobras pelo ex-deputado federal pelo Paraná José Janene, morto em 2010.
O advogado de Costa, João Mestieri, não quis dar muitas declarações sobre a participação de seu cliente na audiência. "Sem dúvida tudo aquilo que foi dito pode ajudar dentro do que foi estabelecido como delação", resumiu.
Cada depoimento durou cerca de duas horas e a audiência terminou por volta das 18 horas. A reportagem não conseguiu contato com os envolvidos após o fim da audiência. Youssef retornou para a carceragem da Polícia Federal em Curitiba, onde deve continuar com seus depoimentos para confirmar seu acordo de delação premiada. Já Costa foi escoltado por agentes até o Aeroporto Internacional Afonso Pena, e embarcou para o Rio de Janeiro, onde cumpre prisão domiciliar.

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