O presidente Fernando Henrique Cardoso reconheceu ontem que o governo errou ao promover os cortes na área social. Em seguida, brincou, ao afirmar que determinou à área econômica que refizesse os cálculos e tirasse recursos de outros setores que estão ‘‘nadando’’ em dinheiro.
‘‘Olho para os ministros e vejo que todos estão felizes com a decisão, e determinei que se repusesse os recursos’’, ironizou o presidente, sem detalhar quais ministérios ou quais programas serão atingidos com os cortes. ‘‘O ajuste fiscal não pode significar destroço dos programas sociais’’, afirmou o presidente, no discurso de posse do novo conselho do Comunidade Solidária.
‘‘Não vamos ter cortes nas áreas sensíveis essenciais’’, reiterou o presidente, em discurso, na cerimônia que contou com a presença de 15 ministros. O presidente anunciou que voltam a ter os recursos integrais os benefícios pagos aos idosos, deficientes físicos, abrigos a menores de rua e erradicação do trabalho infantil. A primeira-dama Ruth Cardoso, que foi reconduzida à presidência do conselho, disse, no discurso de posse, que, por meio da articulação dos colaboradores, aprendeu ser possível alcançar os objetivos, sem usar recursos públicos.
A secretária de Ação Social, Wanda Engel, explicou que o presidente resolveu fazer o remanejamento de R$ 139 milhões retirados do Orçamento ‘‘quando tomou consciência do buraco que tinha e queria sair dele para corrigir’’. Segundo ela, os recursos retornarão à secretaria a partir de abril. Wanda avisou que, este mês, não houve cortes no orçamento da pasta.
Wanda informou que o problema ocorreu porque a área econômica informava ao presidente que o corte no programa era de 7% em R$ 1,5 bilhão.
Só que, desse total, R$ 1,150 bilhão é intocável porque representa pagamentos obrigatórios de programas continuados. Restavam R$ 350 milhões, que foram reduzidos em 27%, prejudicando vários programas, até mesmo o de erradicação do trabalho infantil.
A recomposição dos recursos pôde ser feita, de acordo com o presidente, porque as áreas do governo estão atentas e inteiradas permanentemente com setores da sociedade civil. ‘‘A convergência da pressão política do deputado ou de várias organizações e o alerta sobre as ações do governo pelo Comunidade Solidária fazem com que o governo não incorra em erro’’, observou o presidente.
‘‘Muitas vezes, o governo erra, mesmo com vontade de não errar, dadas as enormes dificuldades existentes sempre e por causa dos conflitos de interesses legítimos existentes’’, justificou ele, afirmando que o Executivo, na hora de fixar quantias, pode afetar áreas importantes. Para ele, ‘‘quando isso acontece, só há uma coisa a fazer: feed back, ou seja, prestar atenção e voltar atrás e, se for o caso, corrigir e avançar’’.
O presidente disse que o governo mudou as formas tradicionais de fazer política e voltou a responder as críticas de não-aplicação de recursos na área social. ‘‘Nós fizemos políticas sociais’’, assegurou, lembrando que, quando os críticos condenam os cortes nos programas sociais, ‘‘passam recibo’’ de que o governo criou programas e possui uma política para o setor.

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