Integrantes do primeiro escalão do governo
mostravam ontem apreensão com os possíveis cortes nos gastos dos ministérios para reduzir o déficit fiscal. Uma eventual redução de gastos num orçamento já apertado levou ministros que compareceram ontem às cerimônias pelo Dia da Independência a ensaiar um coro de lamentações. ‘‘Estamos no osso; não tem mais nada para cortar no Itamaraty’’, disse o ministro das Relações Exteriores, Luiz Felipe Lampreia.
No jardim do Palácio da Alvorada, onde acontecia uma solenidade de assinaturas de atos em defesa dos direitos humanos, praticamente todos os ministros presentes mandaram um recado para os ausentes Pedro Malan (Fazenda) e Paulo Paiva (Planejamento). O ministro da Educação, Paulo Renato, foi enfático, quando provocado sobre em que área ele poderia fazer cortes para ajudar a equipe econômica. ‘‘Cortar de onde? Já estamos por aqui’’, respondeu Paulo Renato, colocando a mão no pescoço, para demonstrar que seu orçamento está no limite.
O mesmo discurso foi repetido pelo ministro da Previdência, Waldeck Ornelas. ‘‘Meu ministério é mínimo. Muito pequenininho’’, desconversou Ornelas. ‘‘Só se cortar verbas da assistência’’, comentou o ministro, lembrando que a maior parte dos recursos de sua pasta é para pagar benefícios. Já o ministro da Cultura, Francisco Weffort, não escondeu o incômodo de falar no assunto. ‘‘Até agora ninguém me falou nada. Não tem nada para cortar e a imprensa tem que parar de agourar’’, disse.
O único que demonstrou cautela ao comentar possíveis cortes no orçamento foi o ministro do Trabalho, Eduardo Amadeu. Ele disse que ainda não foi consultado sobre o assunto mas que aguarda uma posição dos ministros da área econômica. Em relação ao aumento da taxa de juros, Amadeu esclareceu que a curto prazo a medida não é favorável à questão do emprego no País. ‘‘O aumento da taxa de juros acaba tendo, de imediato, um efeito negativo em relação ao desemprego’’, observou Amadeu.
Mas, segundo o ministro, ao mesmo tempo em que, nesse momento, o aumento da taxa de juros prejudica a economia, acaba reforçando para o Brasil uma imagem de credibilidade. ‘‘Medidas firmes como esta acabam trazendo credibilidade para o País junto ao mercado exterior e até mesmo aqui dentro. O aumento do juros permite a retomada de um quadro e normalidade no mercado brasileiro’’, explicou Amadeu, lembrando que, posteriormente, isso acabará refletindo na diminuição das taxas de desemprego.Arquivo Folha‘‘Cortar de onde?Já estamos por aqui’’,
disse Paulo Renato
com a mão no pescoçoGerson Camarotti
e Isabel Braga
Agência Estado

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