Brasília - Ao anunciar ontem o envio de projeto de lei ao Congresso que endurece os flagrantes de corrupção, o presidente Lula afirmou que esse tipo de crime às vezes acontece dentro de casa sem que se perceba.
''A corrupção é como uma droga (...) Às vezes, o filho está queimando um 'baseadinho' no quarto, e ele (pai) não sabe. A corrupção é assim. Às vezes ela está dentro da tua casa, ela está na tua porta e você não sabe.''
Há quatro anos, o presidente enfrentou denúncias de que seu governo pagava mensalão a deputados em troca de apoio em votações. Lula disse na época que não sabia do esquema.
''Eu prefiro que saia manchete para a gente poder investigar, do que não sair nada e a gente continuar sendo roubado e continuar não sabendo o que está acontecendo.''
Em nenhum momento no evento contra a corrupção, Lula mencionou o escândalo do mensalão do DEM no Distrito Federal.
Lula afirmou que, ao apresentar a proposta, o governo está agindo para combater a ''safadeza'' com o dinheiro público e defendeu rigor nas punições, principalmente as que atinjam o ''alto clero''.
''Um cara que rouba um pãozinho vai preso e um cara que rouba R$ 1 bilhão não vai preso (...) Se não aumentarmos a punição para essa gente, vamos continuar enchendo as cadeias de pobres'', declarou.
Lula criticou a existência dos paraísos fiscais, disse que o Brasil é um dos países que mais têm instituições de combate à corrupção e afirmou que levará o seu projeto à próxima reunião do G20 (grupo das maiores economias do mundo).
Segundo o presidente, a administração pública deve fazer um ''check-up'' anual para tentar identificar ações de corrupção, já que muitos que a praticam têm ''cara de anjo'' e não dão sinais de que estão desviando recursos públicos.
Projeto
O projeto de lei proposto pelo govenro torna hediondos os crimes de corrupção no país quando cometidos por ''altas autoridades'' da administração pública federal, estadual e municipal.
O objetivo do governo, segundo o ministro Jorge Hage (Controladoria Geral da União), é considerar como crimes hediondos a corrupção ativa, passiva, concussão e o peculato, com o aumento das penas para os aqueles que cometerem essas irregularidades.
''O projeto de lei torna hediondo o crime de corrupção quando cometido a partir de um determinado nível de autoridades, que gozam de prerrogativas maiores, dispõem de poder decisório maior. Os crimes de corrupção e correlatos, como peculato e corrupção ativa e passiva, serão considerados crimes hediondos'', disse Hage.
Ao ser classificada como hediondo, a corrupção passa a ser crime inafiançável quando cometidos por autoridades do primeiro escalão. Se o crime for de responsabilidade de servidores públicos que não ocupam cargos de alto escalão, o projeto não prevê que o crime seja hediondo.
A proposta, porém, estabelece penas maiores para todos aqueles que cometerem crimes de corrupção, aumentando o tempo de prisão temporária para quem desviar recursos da administração pública. ''Os crimes serão incluídos nas hipóteses de prisão temporária, que deixará de ser submetida de cinco a dez dias, para ser submetida ao limite de 30 a 60 dias. É um ato da maior relevância que estamos tomando'', afirmou. O projeto propõe que as penas mínimas para os crimes de corrupção subam de dois para quatro anos.

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