Brasília - O ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência da República) afirmou na manhã de ontem que os órgãos de fiscalização e controle do governo federal nunca tiveram tanta autonomia e liberdade até mesmo quando ''cortam na própria carne''. ''A impressão de que há mais corrupção agora não é real. O que há mais agora é que as coisas não estão mais embaixo do tapete'', disse o ministro, antes do seminário internacional Desafios da Construção da Democracia no Mercosul, em Brasília.
Questionado se o governo apoia ações do Ministério Público, da Polícia Federal e da Controladoria-Geral da República ''doa a quem doer'', o ministro respondeu: ''Sempre foi assim''. Carvalho, contudo, não quis falar especificamente sobre os desdobramentos da Operação Porto Seguro, da PF.
Crítica aos tucanos
Numa crítica explícita aos tucanos, o ministro, que foi chefe de gabinete do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, fez questão de dizer que foi a partir do governo Lula, em 2003, que os órgãos de controle tiveram o aval do governo para agir de forma autônoma.
''Os órgãos todos de vigilância, fiscalização, estão autorizados e com toda liberdade garantida pelo governo. Eu quero insistir nisso, não é uma autonomia que nasceu do nada, porque antes não havia essa autonomia, nos governos Fernando Henrique não havia autonomia, agora há autonomia, inclusive quando cortam na nossa própria carne'', disse o ministro.
O ministro destacou a liberdade de ação não apenas dos órgãos de controle diretamente ligados ao governo federal - Polícia Federal e Corregedoria Geral da União -, como também ressaltou a autonomia do Ministério Público. Para Carvalho, ''nunca nesse país'' o procurador-geral da República teve tanta independência. Foi o ex-procurador-geral Antonio Fernando de Souza quem denunciou petistas pelo envolvimento no mensalão e é o atual procurador-geral Roberto Gurgel quem defendeu diante do Supremo Tribunal Federal a condenação de aliados do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
''Antes havia engavetador geral da República. Com o presidente Lula nós começamos a ter um procurador com toda liberdade'', disse, numa referência ao ex-procurador Geraldo Brindeiro, que ganhou fama por não levar adiante processos envolvendo autoridades com foro privilegiado.
Resposta
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso respondeu às declarações de Gilberto Carvalho. ''Esse jovem eu até já me esqueci dele. Tenho 81 anos e tenho memória. Esse senhor deveria respeitar o passado, não o passado dele, e não dizer coisas levianas. Eu, quando assumi o governo, a Polícia Federal era uma bagunça. A escola da Polícia Federal estava fechada. Nós arrumamos tudo e por isso esse senhor precisaria pensar duas vezes antes de dizer o que não sabe. Eu não quero ficar falando, mas durante o meu governo houve senadores algemados. Achei um exagero, mas houve senadores algemados. Houve governadores irritados porque a Polícia Federal descobriu dinheiro guardado'', disse Fernando Henrique, sem citar nomes, mas referindo-se à Roseana Sarney, que, em 2002, quando pretendia disputar a Presidência da República, a Polícia Federal encontrou dinheiro não declarado na empresa Lunus Participações, administrada pelo marido, Jorge Murad Júnior.

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