Corrupção ainda emperra o País
PUBLICAÇÃO
sábado, 27 de outubro de 2001
Silvio Bressan<br> Agência Estado<br> De São Paulo 
Apesar de todos os avanços verificados nos últimos anos no controle da administração pública - como, por exemplo, a atuação do Ministério Público e da mídia, ou a aprovação da Lei do Colarinho Branco - a corrupção ainda é um dos fatores que mais atrapalham o desenvolvimento do Brasil. ''Quanto maior a corrupção, maior a dificuldade para o crescimento do país'', afirma o economista, professor de Economia Política e pesquisador exclusivo da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) Marcos Fernandes Gonçalves, autor de um dos trabalhos mais completos sobre o tema. ''Com corrupção também se cresce, mas fica muito mais caro e injusto para a sociedade.''
Segundo Gonçalves, se o índice de percepção da corrupção no Brasil fosse reduzido em um ponto, o índice de produtividade do País (um cálculo de renda per capita que leva em conta os habitantes em idade ativa e não toda a população) aumentaria de US$ 10,1 mil para US$ 13,7 mil. ''O Brasil melhorou, mas continua em um grupo de risco para o capital externo'', avalia. Para chegar a essa conclusão, o pesquisador e os colegas Fernando Garcia e Andrea Camara Bandeira cruzaram centenas de dados econômicos e sociais de 81 países e comprovaram os efeitos nocivos da corrupção sobre a economia.
Como sócio-fundador da Organização Não-Governamental Transparência Brasil, Gonçalves se dedica ao estudo da corrupção e sua relação com a economia e a democracia. Além do paper ''How does corruption hurt growth?'' (Como a corrupção afeta o crescimento?), apresentado no 25º Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), ele já concluiu o livro ''A Economia Política da Corrupção no Brasil'', a ser publicado pela Editora Senac/SP até o final do ano.
Na tese, ele mostra que o índice de corrupção dos países pesquisados quase sempre é inversamente proporcional ao nível de desenvolvimento econômico. Assim, a corrupção é menor naqueles países com maior renda per capita. O Brasil aparece com um índice 0.4 de corrupção, o que deixa o País bem próximo aos mais corruptos, numa escala que começa no Haiti (0.2) e vai até a Suécia (1.0). Quase na mesma proporção, o Brasil também figura entre as nações com menor renda per capita - US$ 10,1 mil em um quadro que vai até US$ 45 mil.
De acordo com o professor Gonçalves, uma redução de 0.4 para 0.5 (quanto maior, menor a corrupção) no nível de percepção da corrupção no Brasil poderia elevar em US$ 3,6 mil a renda per capita do País. ''O brasileiro não ficaria mais rico de repente, mas haveria um bom aumento na produtividade e eficiência da economia'', explica.
Isso não quer dizer, adverte o autor, que a corrupção seja a causa das desigualdades sociais. ''Não há evidência disso, mas podemos inverter e afirmar que uma sociedade desigual legitima a corrupção, que por sua vez vai afetar o crescimento e desenvolvimento social'', pondera Gonçalves. Esse ciclo, continua ele, cria uma instabilidade que é percebida pelo capital externo. ''Talvez o maior custo da corrupção seja o da instabilidade institucional.''


