A Corregedora-Geral da União, ministra Anadyr de Mendonça Rodrigues, assumiu o cargo ontem sem dizer a que veio. Com um discurso conciliador, ela prometeu trabalhar em harmonia com os outros Poderes, numa resposta velada às reações negativas do Judiciário e do Ministério Público, e transferiu para o presidente Fernando Henrique Cardoso a decisão sobre o destino de outros ministros que eventualmente se envolvam em irregularidades. A corregedora admitiu que não tem poder de sanção contra seus colegas nem a atribuição de fazer deslanchar processos. Sua função, disse, será fiscalizar e garantir que as investigações sejam concluídas com rapidez e eficiência.
‘‘Os ministros estão afetos à autoridade do presidente’’, afirmou Anadyr em sua primeira entrevista. ‘‘Em casos em que não seja ação do ministério, haverá ação da Corregedoria; em casos que exceda essa atuação encaminharei ao presidente’’. Anadyr garantiu que não foi empossada para encobrir nenhum fato relacionado ao governo, principalmente aqueles que sustentariam a criação da chamada CPI da Corrupção. No seu primeiro dia de trabalho, ela pediu um balanço detalhado de todos os procedimentos já tomados para solucionar os casos em investigação, entre eles os do DNER e da Sudam.
A corregedora-geral mandou um recado claro para o Ministério Público: ‘‘Não haverá invasão da competência de ninguém’’, avisou. Parafraseando o presidente, ela comparou a atuação da Corregedoria à de uma orquestra. ‘‘Não se estará usurpando o instrumento de ninguém, mas regendo os instrumentos diferentes que hoje já tocam’’, prometeu a ministra.
Fernando Henrique já havia se referido à uma orquestra para criticar seus adversários no Congresso. ‘‘Não está havendo uma revolução em que haja usurpação de competência alheia, o que se está fazendo é harmonizar procedimentos que já existem e que estão, às vezes, dispersos’’, frisou. ‘‘As competências penais continuam com o Ministério Público.’’
A nomeação de Anadyr Mendonça gerou expectativa e certa desconfiança no Judiciário e no Ministério Público. Ontem, o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Paulo Costa Leite, informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a criação do órgão é um problema do Executivo, mas deixou claro que não aceitará interferências no trabalho do Judiciário. Entre os procuradores, o clima foi o mesmo.
A corregedora, dizem fontes no Ministério Público, faz parte de um grupo de procuradores que entendem não ser função do Ministério Público conduzir investigações. ‘‘Para ela, isso é trabalho da Polícia Federal’’, disse um procurador, externando o temor de que, com isso, ela venha a cercear o trabalho do Ministério Público. Ela também é qualificada como uma pessoa ‘‘extremamente burocrática’’, característica que não ajudaria no desempenho de suas novas funções.

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