Agência Folha
Do Recife
O corpo do líder das Ligas Camponesas Francisco Julião foi cremado domingo, na cidade de Cuernavaca, no México. Segundo a Embaixada do Brasil, a informação foi passada ontem pela viúva de Julião, Marta Ortiz, que é mexicana. As autoridades brasileiras no México aguardavam ontem a chegada de um dos filhos de Julião que mora no Brasil, Anatólio Julião, para saber qual o destino das cinzas do líder camponês. Julião, de 84 anos, morreu às 12 horas de sábado na cidade de Tepoztlan, vítima de infarto.
Segundo o assessor de imprensa da embaixada, Paulo Jardim, Julião vivia recluso em Tepoztlan. ‘‘Ele esteve aqui nas eleições do ano passado, para justificar o voto, mas se recusava até a deixar o número do telefone’’, disse Jardim. Até ontem, a família de Julião ainda não decidiu onde será o funeral. O desejo dos familiares no Recife é que o funeral aconteça em Pernambuco. Julião havia dito a parentes no Brasil que gostaria de ter as cinzas espalhadas sobre um pé de cajazeira na Fazenda Espera, de propriedade da família, em Bom Jardim, onde ele nasceu, a 106 quilômetros do Recife. As cinzas de Julião deverão ser transportadas do México, onde ele viveu durante 16 anos, para Pernambuco, informou outro filho dele, Anacleto Julião.
Criadas por Francisco Julião em 1954, as Ligas Camponesas, que defendiam a reforma agrária, na ‘‘lei ou na marra’’, foram um embrião do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Julião passou os últimos anos escrevendo as memórias, tendo concluído o primeiro volume, que abrange a criação das ligas e o movimento militar de 1964 - quando ele foi preso, com o então governador de Pernambuco, Miguel Arraes (PSB). A família espera publicar o livro até o fim do ano.
Libertado, Julião exilou-se no México. Ele retornou ao Brasil em 1979, com a anistia. Amigo do atual presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, o ex-deputado ajudou a criar e filiou-se ao PDT. Ele perdeu a eleição para deputado federal, em 1986, em Pernambuco. Na época, ele apoiou para o governo do Estado, contra Arraes, o candidato defendido pelos usineiros, o hoje deputado federal, José Mucio (PFL).
Francisco Julião conseguiu articular na época um acordo pelo qual os usineiros se comprometiam, em caso de vitória de Mucio, doar 10% das terras para a reforma agrária. Para Brizola, a morte de Francisco Julião ‘‘representa uma grande perda para o povo brasileiro’’.

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