Coronelismo resiste no Congresso
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sábado, 26 de setembro de 1998
Nelson Breve Agência Estado 
A intensa atuação das bancadas
corporativas de parlamentares durante o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso ofuscou a atuação dos líderes que exercem influência pessoal em bancadas suprapartidárias, mas não sepultou o coronelismo político no Congresso. As bancadas pessoais encolheram com o fortalecimento da liderança do presidente da República e a falta de alternativas para substituí-lo. Além disso, a possibilidade de reeleição deixou vários grupos políticos mais distantes do poder.
Essa tendência poderá se reverter nos próximos anos, tendo em vista a disputa por espaço na corrida pelo Palácio do Planalto em 2002. Para disciplinar esse processo, o governo deseja aprovar, já no ano que vem, o instituto da fidelidade partidária, mecanismo que ao obrigar o parlamentar a seguir as orientações de seu partido teoricamente deverá reduzir a influência dos coronéis sobre parlamentares de outros partidos. A exigência de fidelidade, em tese, aumentará a funcionalidade e tornará mais previsível o processo decisório legislativo.
O ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) e o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), são atualmente os mais influentes donos de bancadas pessoais no Congresso. Embora não existam levantamentos quantitativos confiáveis, estima-se que eles exerçam influência sobre o comportamento de cerca de 70 congressistas cada, de acordo com as contas de seus liderados. Essa liderança transcende os partidos e as fronteiras de seus Estados de origem.
O senador José Sarney controla as bancadas do PMDB e do PFL tanto do Maranhão como do Amapá, tem aliados na maioria dos Estados do Norte e Nordeste e ainda exerce influência sobre dezenas de parlamentares que participaram do seu governo ou dele se beneficiaram com, por exemplo, concessões de rádio e televisão durante seu governo.
Com uma atuação discreta, sua influência chega ao representante do PMDB no Conselho Político da campanha do presidente Fernando Henrique Cardoso à reeleição, senador Ramez Tebet (MS), e ao ministro da Justiça, Renan Calheiros (PMDB-AL). Sarney procura não exercer sua liderança, mas quando quer pode contar com o apoio de mais de 40 deputados e 20 senadores, calcula o vice-líder do governo no Senado Edson Lobão (PFL-MA).
Na votação da emenda da reeleição, Sarney quase acionou sua bancada pessoal para impedir a aprovação, mas foi contido pela sua filha Roseana, governadora do Maranhão, que seria beneficiada. Antigos correlegionários dizem que, por não cultivar seus aliados, o ex-presidente já teria perdido boa parte de sua bancada pessoal. Isso não é verdade, rebate Lobão. Justamente por não exercer sua influência no dia-a-dia, ele está em crédito com seus aliados, sustenta o senador.
Já a atuação de Antônio Carlos Magalhães é mais ostensiva. Ele cultiva sua bancada pessoal no dia-a-dia, operando em quase todas as votações importantes do Congresso. Embora seus adversários considerem que ele é mais temido do que respeitado, seus aliados apontam o carinho do líder como o principal motivo da fidelidade. Em um País onde não existe fidelidade partidária, ACM construiu uma unidade com base na filosofia da reciprocidade, explica o vice-líder do PFL na Câmara, José Carlos Aleluia (BA).
Os coronelismo na política brasileira é tão antigo quanto a república. Eles estiveram no auge durante a chamada política do café com leite, quando alternavam-se na presidência do país políticos de Minas Gerais e São Paulo, resistiram ao Estado Novo de Vargas e avançaram, embora perdendo força, até a nossa época.


