O conselheiro do Tribunal de Contas, Nestor Baptista, prestou depoimento ontem sobre o assassinato do líder sem-terra Diniz Bento da Silva, o Teixeirinha, durante ação de desocupação comandada pela Polícia Militar em 93 na Fazenda Sant’Ana, em Campo Bonito (Oeste do Estado). Convocado pelo delegado do Centro de Operações Especiais da Polícia Civil (Cope), Júlio Reis, o conselheiro é uma das testemunhas arroladas pelo ex-secretário do Emprego e Relações do Trabalho e ex-deputado federal pelo PMDB Joni Varisco (PTB), que acusa o então governador e hoje candidato do PMDB ao governo, senador Roberto Requião, de ter ordenado a execução.
O caso Teixeirinha foi arquivado duas vezes pela Justiça Militar. Em março deste ano, as investigações foram reabertas pela juíza de Guaraniaçu, Cristiane Leite, a pedido da promotora Esperia Costa Moura. A promotoria alegou que a Lei 9.299, de 96, alterou dispositivos do Código Penal Militar e do Processo Penal Militar, e que a morte do sem-terra passou a ser de competência da Justiça comum.
No depoimento, Baptista negou as declarações de Varisco que, em maio deste ano, disse ter presenciado, juntamente com o conselheiro e o ex-governador Mário Pereira - que na época era vice-governador - uma conversa por telefone entre Requião e o ex-comandante da Polícia Militar de Cascavel, coronel Pontes.
Ligações ‘‘A sala era reservada. Eu não ouvi nada. A única coisa que sei é que Requião ficou muito contrariado ao saber da morte de três policiais militares durante a ação de desocupação’’, contou Nestor Baptista. Corregedor do TC à época, Baptista disse que viajou com Requião e Pereira de Curitiba a Brasília e depois para Roraima, onde participaria de um evento envolvendo municípios. ‘‘O Requião fez diversas ligações e não apenas uma. Ficou quase 40 minutos conversando com o Paraná quando soube do incidente entre os sem-terra e os policiais. Eu não tive acesso ao conteúdo dos telefonemas, até por uma questão de educação’’, reforçou.
O próximo a prestar informações ao Cope sobre o caso Teixeirinha será o ex-governador Mário Pereira. O seu depoimento está previsto para a semana que vem.
A retomada dos depoimentos sobre o episódio causou inquietação no PMDB. Aliados do senador Roberto Requião temem que o caso interfira no processo eleitoral, já que Joni Varisco, que é aliado do governador Jaime Lerner (PFL), promete reacender a bateria de acusações contra o senador.
No depoimento prestado em maio deste ano, o ex-secretário de Lerner afirmou ter ouvido Requião, no hangar da Líder Taxi Aéreo, em Brasília, dizer para que o comando da PM em Cascavel ‘‘caçasse’’ Teixeirinha.
A morte do líder sem-terra teve repercussão nacional. Uma comissão especial de direitos humanos veio de Brasília a Curitiba para ajudar nas investigações. A versão da PM foi de que Teixeirinha resistiu à prisão, depois de ocupada uma área na região de Campo Bonito.
Já os sem-terra chegaram a declarar em interrogatório durante o inquérito militar que a PM fez execução sumária do dirigente, como uma vingança pela morte dos três policiais militares, que teriam sido confundidos como seguranças da fazenda, propriedade da família Delidério.Arquivo FolhaNestor Baptista: ‘‘A única coisa que eu sei é que Requião ficou muito contrariado quando soube da morte dos três policiais’’Leandro Donatti

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