Conversas evitaram pedido de impeachment no mensalão
PUBLICAÇÃO
sábado, 30 de agosto de 2008
Carlos Marchi<br> Agência Estado 
Durante todo o primeiro mandato e parte do segundo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve uma linha direta de consultas com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, mantida por meio de conversas secretas dos então ministros Antonio Palocci, da Fazenda, e Márcio Thomaz Bastos, da Justiça. A linha direta funcionou com mais vigor no auge do escândalo do mensalão, quando os ministros pediram a Fernando Henrique para agir e evitar que a oposição descambasse para pedir o impeachment de Lula. Ele atendeu e se posicionou publicamente contra o impeachment.
Os encontros foram confirmados pelo ex-presidente, Palocci e Bastos. Palocci esteve pessoalmente com Fernando Henrique ''pelo menos cinco vezes''; Bastos disse ter conversado com ele pessoalmente apenas uma vez, em junho de 2005, momento em que crescia a onda do impeachment. Mas os contatos por telefone foram bem mais frequentes. Palocci e Bastos asseguram que Lula sempre soube das conversas antes de elas ocorrerem e foi informado do seu resultado depois. Mais de uma vez em momentos de difícil enfrentamento com a oposição, Lula sugeriu a Palocci: ''Vai conversar com Fernando Henrique''.
À reportagem, Fernando Henrique elogiou Palocci e Bastos, confirmou as conversas e disse que elas foram possíveis porque os dois ex-ministros de Lula têm ''noção institucional''. Estendeu o elogio ao chefe de gabinete Gilberto Carvalho: ''Esse também tem noção institucional.'' Lamentou que a linha de consulta tenha sido interrompida em 2008. No começo, não foi difícil a Palocci procurar o ex-presidente: além de manter excelentes relações com a oposição desde quando era ministro, ele tem a simpatia de Fernando Henrique desde que, prefeito de Ribeirão Preto, inaugurou-lhe uma estátua na cidade. ''Não foi fácil para ele'', reconhece o ex-presidente. Do gesto, brotou afeto.
A conversa com Bastos ocorreu no dia 26 de junho de 2005, no apartamento do ex-presidente, em Higienópolis, e durou das 21 horas à 1 hora da madrugada. Não faltava intimidade pregressa aos dois: antes de serem amigos, eles conviveram em função da amizade dos seus pais. Bastos contou a Fernando Henrique os receios que Lula alimentava e perguntou sobre o espírito então reinante na oposição. A expressão exata que usou foi: ''Precisamos baixar essa bola''.
Argumentou que ninguém podia apostar no pior, porque o País ficaria ingovernável. O ex-presidente concordou, deu um conselho e fez uma promessa. O conselho foi que Lula cuidasse de segurar os números da economia e impedisse que se evidenciassem sinais externos de desgoverno; a promessa foi que não jogaria lenha na fogueira e tentaria acalmar seus pares.
Nas semanas seguintes, a sua influência foi sentida e acabou sendo vital para que a oposição refreasse o ímpeto e não chegasse ao limite do pedido de impeachment. Três anos depois, olhando para trás e avaliando a situação, o ex-presidente minimizou o fato de ter atendido aos apelos. ''Eu não fiquei contra o impeachment porque eles me pediram, mas porque sou muito cauteloso nessas questões. Na época, não havia condições políticas para sustentar um pedido de impeachment de Lula. Criaria uma cisão no Brasil'', alinhou. Explicou por que aceitou as conversas secretas: ''Adversários políticos não devem ser tratados como inimigos''.


