Contador delata esquema de 'empresas fantasmas'
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 31 de março de 2015
Loriane Comeli e Edson Ferreira<br> Reportagem Local 
O contador Hederson Flávio Bueno, um dos 28 indiciados pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na Operação Publicanos, prestou depoimento ontem, por mais de quatro horas, e relatou como abriu empresas para serem usadas pela "superorganização criminosa que atuava na Receita Estadual de Londrina", segundo palavras do promotor Renato de Lima Castro, que apura possível improbidade administrativa de fiscais e empresários.
Seriam pelo menos duas empresas, que, de fato, não funcionavam, mas emitiam notas fiscais usadas no esquema dos auditores. Essas empresas "podem ter sido utilizadas por algumas pessoas, sobretudo auditores, para emissão de notas fiscais que serviram para a obtenção de algum benefício fiscal", afirmou o promotor do Gaeco, Cláudio Esteves. "Foram valores bastante expressivos, talvez milionários, os valores em notas emitidas por essas empresas", completou.
As notas fiscais frias serviam para justificar dívidas menores de ICMS ou mesmo créditos tributários. A propina era uma porcentagem sobre o valor que o empresário obteria pagando impostos a menos ou sobre o crédito de ICMS.
Uma das empresas fantasmas aberta por Bueno, que é irmão do auditor Marco Antonio Bueno e ex-cunhado de Luiz Antonio de Souza (ambos presos em decorrência da operação), é a Tarfil, que trabalharia no ramo de alumínio.
O advogado do contador, Italby Moraes, negou que seja uma empresa de fachada, mas também não revelou o endereço da Tarfil e tampouco quem seriam seus proprietários. "Ainda são informações sigilosas. O papel do meu cliente foi apenas abrir a empresa."
Bueno teve a prisão decretada na sexta-feira passada, mas era considerado foragido. Ontem, após um acordo com o Gaeco, que pediu a suspensão do mandado de prisão, o contador apresentou-se e resolveu colaborar. O Gaeco deve pedir a revogação da medida.
Diante de fatos novos que surgiram desde sexta-feira passada, quando o inquérito foi concluído, o promotor Cláudio Esteves não descarta a abertura de um novo procedimento. "Esses fatos novos poderão ser incluídos na denúncia ou em um novo inquérito." O prazo para o Ministério Público propor a ação penal é de cinco dias, a partir da volta do inquérito do Judiciário.
Um dos indiciados no inquérito, cuja participação ainda não estava clara, é o empresário Adnalde Lujete, que teria procurado o Gaeco há alguns meses para denunciar suposto esquema que envolveria a empresa Silo da Moda, de Bandeirantes (Norte), cujos donos o casal Carlos Henrique e Andreia Dias chegaram a ser detidos, mas passaram a colaborar com a investigação, assim com seu contador, Emerson Rodrigues.
Após a deflagração da operação, Lujete, que é ex-sócio dos Dias, retornou ao Gaeco e contou que o casal pagou, em 2011, R$ 200 mil de propina aos auditores fiscais Rosângela Semprebom e Márcio de Albuquerque Lima, que era o chefe da Receita em Londrina. O pagamento foi feito em quatro vezes de R$ 50 mil. Com isso, a Silo da Moda não seria multada. Em vez disso, uma empresa fantasma do grupo teria sido multada. O próprio Lujete admite ter pago propina para a auditora Rosângela.


