Construtores têm força e prestígio
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de fevereiro de 1998
João Domingos, Agência Estado 
Arquivo AE
(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)
FilantropoNaya: desconhecido até a tragédia do Palace, distribui presentes caros e empresta seu avião e helicópteroO desabamento, no Rio, de um prédio construído pela empresa do deputado Sérgio Naya (PPB-MG) não conseguiu abalar o prestígio político da bancada de parlamentares ligados ao setor da construção civil. De acordo com o Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), ela é formada na Câmara por 19 deputados. É bem menor do que a ruralista, que conta com mais de cem integrantes, mas tem força e influência suficientes para defender os projetos de seu interesse. Um dos exemplos foi a rapidez na aprovação proposta que criou o Sistema Financeiro Imobiliário, que permite às construtoras o financiamento dos imóveis diretamente ao consumidor.
A força dos construtores resume-se principalmente a um ponto: o peso dos nomes dos que compõem esta bancada informal. Nem todos são parlamentares apagados como Naya. À bancada pertencem o atual ministro dos Transportes, Eliseu Padilha, o ex-ministro da Casa Civil no governo Sarney Luís Roberto Ponte (PMDB-RS), o ex-secretário da Indústria e Comércio do Rio Márcio Fortes (PSDB-RJ), o ex-vice-presidente da Câmara Ronaldo Perim (PMDB-MG), o ex-presidente da Comissão de Economia da Câmara Pauderney Avelino (PFL-AM) e o ex-presidente da Comissão do Trabalho da Câmara Wigberto Tartuce (PPB-DF).
O nome de Sérgio Naya era desconhecido até o desabamento de parte do bloco 2 do Condomínio Palace II, na Barra da Tijuca, feito por sua empresa Sersan. Mas isto não significa que tenha pouca influência na Câmara. Ele sempre trabalhou nos bastidores. Costuma agraciar alguns amigos com presentes caros, como automóveis. Cede seus apartamentos, jatos e helicópteros a outros. Também ajuda a financiar a campanha dos que julga necessário dar uma mão.
Apesar do volume de dinheiro que a construção civil movimenta - só para se ter uma idéia, um apartamento às vezes vale mais do que a fazenda de um ruralista - há registros de casos de extrema avareza entre os representantes da bancada dos construtores. O deputado Wigberto Tartuce, dono de uma das maiores empresas do ramo da construção civil em Brasília, foi flagrado utilizando o dinheiro da Câmara para pagar os serviçais de sua mansão de 3 mil metros quadrados em uma chácara no Lago Sul, o bairro mais nobre da capital.
Outro integrante desta bancada, o deputado Zé Gomes da Rocha (PSD-GO), contratou com o dinheiro da Câmara os jogadores da equipe do Itumbiara Esporte Clube, time que, mais do que ser do seu coração, tem uma torcida que garantiu ao deputado, até agora, três mandatos em Brasília. Assim como Wigberto Tartuce, Zé Gomes respondeu a processo de falta de decoro, mas foi absolvido. Zé Gomes não aparece nos debates em plenário, prefere o canteiro de obras. Durante a curta administração da então ministra da Ação Social Margarida Procópio, no governo Collor, conseguiu levá-la três vezes a Itumbiara, um recorde nunca superado por nenhum parlamentar.
A deputada Célia Mendes (PPB-AC) é mulher do ex-deputado Narciso Mendes, dono da Construtora Mendes Carlos. Esta empreiteira ganhou a concorrência para a construção de um hospital na cidade-satélite de Paranoá, em Brasília, ainda no governo Collor. As obras foram tidas como superfaturadas e o governador do Distrito Federal, Cristóvam Buarque (PT), suspendeu o contrato. Enquanto o governo federal repassava o dinheiro, as emendas ao Orçamento destinadas à continuidade da construção eram feitas por Célia.


