A cooperativa Cooprelon, contratada em dezembro do ano passado pela Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU) para recolher o lixo reciclável de 95 mil domicílios de Londrina, solicitou ao Conselho Municipal de Ambiente (Consema) R$ 50 mil para a compra de equipamentos de proteção individual (EPI) para os catadores. No entanto, o contrato, no valor de R$ 1,4 milhão por seis meses, prevê que o dinheiro repassado pelo município (R$ 238 mil mensais) deve cobrir despesas com a aquisição de EPI, além de outros gastos.
Por isso, o Consema, que administra o Fundo Municipal do Ambiente - para onde vão os recursos de multas ambientais, por exemplo - negou o pedido da cooperativa. O advogado Camillo Kemmer Vianna, membro da Câmara Jurídica do conselho, explicou que além de o contrato já contemplar despesas com EPI, a contratação da Cooprelon pela CMTU está sob investigação do Ministério Público (MP). ''A Câmara opinou pelo indeferimento do pedido em razão de já haver previsão contratual para o EPI e das irregularidades que estão sendo investigadas'', disse Vianna.
A Promotoria de Defesa do Patrimônio Público de Londrina instaurou inquérito civil para apurar o fato de o presidente da cooperativa, Maurício Montezini, não ser catador de baixa renda, em afronta ao Plano Nacional de Saneamento (lei federal 11.445/2007). O plano alterou a Lei de Licitações prevendo a possibilidade de dispensa de licitação para a contratação de cooperativas formadas exclusivamente por catadores de baixa renda. Também fazia parte da Cooprelon Erlandes Santos Silva, que já teve uma empresa e nunca foi catador de baixa renda. Depois das denúncias, ele renunciou ao cargo e foi contratado para a área administrativa da Cooprelon. Já Montezini, que não é catador, permanece no cargo.
Outra possível irregularidade apurada pelo MP é a parceria que a Cooprelon fez com a Supraclean, empresa que recicla plástico para fabricar materiais para limpeza, como rodos, vassouras e sacos plásticos. Interessada em comprar o plástico que a Cooprelon viesse a recolher nos domicílios, a Supra emprestou caminhões para a cooperativa antes da assinatura do contrato com a CMTU e agora está alugando os veículos, ou seja, recebe parte dos recursos públicos.
O contrato entre a CMTU e a Cooprelon prevê que os veículos deveriam pertencer à cooperativa.
Há outras ligações entre a cooperativa e a empresa: Montezini, antes de se tornar presidente da Cooprelon, prestava serviços à Supra; e no alvará de funcionamento da cooperativa constava o telefone e o endereço eletrônico da empresa. ''Todas essas situações geram muitas dúvidas e foi isso que fez o conselho negar o pedido'', avaliou o presidente do Consema, Fernando Barros.
Ele lembrou que surgiram muitas empresas na região de Londrina que produzem a partir de materiais recicláveis e, por isso, o grande interesse delas nas cooperativas de catadores. ''Todo mundo está atrás de plástico, o que deveria fazer aumentar o preço e melhorar os ganhos dos catadores'', analisou. Porém, se uma empresa ''patrocina'' uma cooperativa e se torna sua única compradora poderá pagar pelo produto preços abaixo do mercado.

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