Com R$ 2,7 mil por mês, pode-se pagar o aluguel e também o condomínio em Curitiba de um apartamento considerado de alto padão pelo mercado imobiliário. Com localização em área nobre, nos bairros Batel ou Champagnat, por exemplo, o tamanho de um imóvel desse tipo não seria inferior a 350 metros quadrados, com três salas, quatro quartos (sendo duas suítes), e duas vagas na garagem.
Enfim, um apartamento de primeira linha, segundo fontes do setor imobiliário consultadas pela Folha. Ainda assim, com todo esse dinheiro, asseguram essas fontes, não seria fácil alugar um apartamento com essas características na cidade porque não há oferta.
A partir de outubro, R$ 2,7 mil será o valor pago aos conselheiros do Tribunal de Contas (TC) como ‘‘auxílio-moradia’’, apesar de todos os cinco atuais conselheiros terem casa própria em Curitiba, fato comprovado pela Folha ontem. Na realidade, informa a assessoria de imprensa do TC, o valor a ser recebido pelos conselheiros deve ser pouco superior a R$ 500,00 mensais. Isso se deve à aplicação de um redutor salarial, que impede aos conselheiros receberem salários brutos superiores a R$ 12,72 mil.
A justificativa do presidente do TC, Quiélse Crisóstomo da Silva, para a autoconcessão do reajuste é que a lei o ‘‘obriga’’ a tomar essa atitude. Isso porque a Constituição estipula que o salário de desembargadores e conselheiros de tribunais estaduais pode chegar a, no máximo, 95% do que ganha um ministro do Supremo Tribunal Federal (STF). Em fevereiro, os ministros do STF se autoconcederam o auxílio-moradia. No Paraná, o Tribunal de Justiça (TJ) e o Ministério Público Estadual também vão receber ajuda semelhante. O salário líquido dos conselheiros passaria a ser de R$ 9,5 mil, somando-se o pagamento do auxílio-moradia, calcula a assessoria de imprensa do TC.
O fato é que a autoconcessão do auxílio-moradia para os conselheiros do TC, seja ele de R$ 2,7 mil ou de R$ 500,00, está causando polêmica. Nos bastidores da Assembléia Legislativa e do Poder Executivo, começam os rumores de que pode-se questionar a autonomia do TC para autorizar o benefício. Principalmente pelo fato dos atuais ocupantes dos mais altos cargos do tribunal morarem todos na Capital.
Quiélse, por exemplo, mora praticamente a três quadras da sede do TC, numa confortável casa na Rua Carlos Pioli, 112, no Bairro Centro Cívico. Os outros quatro conselheiros também vivem confortavelmente, em imóveis bastante semelhantes (e possivelmente até mais luxuosos) que o descrito no começo dessa reportagem. Artagão de Mattos Leão, Henrique Naigeboren e Nestor Baptista, residem em edifícios com apenas um apartamento por andar.
Artagão tem um apartamento no sexto andar do mesmo edifício em que a vice-governadora, Emilia Belinati (PTB), mora na cobertura duplex. O Edifício Monte Claro tem 18 andares e fica na Rua Desembargador Otávio do Amaral, 770, a uma quadra da Praça da Ucrânia, no Champagnat (denominação criada pelo mercado imobiliário para o tradicional Bairro Bigorrilho).
Baptista reside na cobertura do Edifício Frederico Kirchgassner (que tem sete andares), no número 115 da Rua Floriano Essenfelder, nos fundos do estádio do Coritiba. Para alugar uma casa comercial (com aproximadamente 220 metros quadrados) que fica ao lado desse edifício, a proprietária está pedindo R$ 1,8 mil por mês.
O apartamento de Naigeboren, cunhado do governador Jaime Lerner (PFL), fica num grande edifício na esquina das ruas Martim Afonso e Professor Fernando Moreira, a uma quadra da Praça 29 de Março. No prédio, com 17 apartamentos, um por andar, o porteiro informou que, em média, o valor cobrado pelo condomínio nunca ultrapassa os R$ 500,00. O conselheiro Rafael Iatauro tem uma casa de pelo menos 500 metros quadrados de área construída na Rua João Evangelista Espíndola, no Bairro Jardim Social, tradicional endereço da clase média alta de Curitiba.

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