Brasília - O presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, Mário Heringer (PDT-MG), disse ontem que pedirá uma perícia nas três fotos que mostrariam o jornalista Vladimir Herzog nu sob custódia do Exército em outubro de 1975 na sede do Doi-Codi, em São Paulo. A comissão também vai levantar casos semelhantes - torturas ocorridas durante o regime militar - para investigar o que de fato ocorreu no período.
''Vamos solicitar perícia, precisamos da perícia destas fotos para verificar se são reais ou não. (...) Não faz sentido cuidar apenas do caso do Herzog. Se vamos cuidar de um, que cuidemos de todos'', afirmou Heringer. A comissão, oficialmente, ainda não reconhece as fotos como sendo de Herzog.
Os deputados da comissão discutirão os próximos passos da perícia da foto em uma reunião hoje. Em entrevista concedida ontem, Heringer sugeriu que tentará identificar os autores da tortura a que Herzog foi submetido.
Ao ser questionado se o objetivo era punir hoje os acusados de tortura de 30, 40 anos atrás, Heringer desconversou. ''Não sei. A nossa intenção é contar a história do que aconteceu. Quando a gente fala da Inquisição, isso tem 400 anos. Esse assunto (a repressão política) não vai ser esquecido. É bom que venha a público para vermos o que fizemos de errado, o que o ser humano fez de errado, e não repetir os erros.''
As três fotos inéditas que retratariam o jornalista Vladimir Herzog foram divulgadas no fim de semana pelo jornal ''Correio Braziliense''. As imagens estavam guardadas desde 1997 na Câmara, entregues pelo ex-cabo do Exército José Alves Firmino à Comissão de Direitos Humanos. A viúva do jornalista, Clarice, reconheceu Herzog em uma dos fotos, mas teve dúvidas se era ele mesmo nos outros dois retratos.
Na época, o então presidente da comissão, Pedro Wilson, atual prefeito de Goiânia (GO), encaminhou cópia do material pedindo explicações à Presidência da República, Ministério da Justiça, Secretaria de Direitos Humanos e para o extinto Ministério do Exército, que hoje é comando. Não houve resposta.
A Comissão de Direitos Humanos da Câmara recebe milhares de documentos todos os anos - não há um controle específico. A maioria é composta de denúncias de violações dos direitos humanos, como tortura policial, por exemplo. Cabe aos deputados analisar a documentação e solicitar informações aos órgãos competentes sobre a apuração.
Se for o caso, os deputados podem pedir a criação de uma CPI, como a que investigou no início do ano a ação de grupos de extermínio no Nordeste do país. O relatório da CPI é encaminhado à polícia e ao Ministério Público.
Ontem, a ex-guerrilheira do Araguaia, Criméia Almeida, 58, identificou as dependências em que a foto foi tirada de Herzog teria sido tirada. Segundo ela, que ficou presa no prédio do Doi-Codi em 1972, trata-se do corredor em que os presos aguardavam a vez de serem torturados. ''Todo mundo que era torturado ficava pelado, isso também aconteceu comigo. O Doi-Codi tinha cinco salas de tortura, três no andar de cima e duas no andar de baixo'', disse ela.

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