Brasília - Em meio a divergências sobre qual será o foco da investigação, o Congresso vai instalar hoje à tarde a CPI dos Correios, 25 dias depois de vir à tona as suspeitas sobre corrupção na estatal e dois após a demissão de sua diretoria. Governo e oposição continuaram ontem a queda-de-braço política sobre se a CPI será restrita aos Correios ou se alcançará a acusação de que o PT pagava R$ 30 mil a deputados em troca de apoio.
Os partidos governistas cederam ao prazo dado pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e indicaram seus integrantes, à exceção do PL e do PTB na Câmara. O presidente e o relator da CPI, postos-chave na investigação, devem ser definidos pelo voto, desrespeitando a praxe de que as maiores bancadas da Câmara e do Senado - a comissão é mista - ficam com esses cargos. ''É provável que a decisão aconteça pelo voto'', disse Renan.
O governo quer controlar os dois postos, mas a oposição exige um deles sob a ameaça de instalar uma CPI exclusiva para investigar o chamado ''mensalão''. Dos 32 integrantes da CPI, 19 pertencem a partidos governistas e 13 a legendas de oposição.
De acordo com a proporcionalidade das bancadas, uma das vagas caberia ao bloco formado pelo PSDB e pelo PFL no Senado e a outra ao PT da Câmara. Pelo rodízio feito entre os partidos, a relatoria caberia aos senadores do PFL, mas os deputados petistas estão pleiteando o posto.
O PT indicou no final da tarde de ontem seus membros titulares. São eles os deputados Maurício Rands (PE), Carlos Abicalil (MT) e Jorge Bittar (RJ) e os senadores Delcídio Amaral (MS), Ideli Salvatti (SC) e Tião Viana (AC). Bittar era hoje à noite o nome mais cotado para presidir a CPI.
Ironicamente, o PT na Câmara começou a recolher também assinaturas para uma CPI da compra de votos, que investigaria o ''mensalão'' mas também episódios como suposta propina paga a deputados para apoiarem, em 1997, a emenda que permitiu a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Partidos governistas e o Palácio do Planalto eram contra a iniciativa.
O requerimento da CPI do mensalão já tem as 27 assinaturas necessárias para sua criação no Senado, mas elas ainda estão sujeitas à conferência da Mesa Diretora. Na Câmara, PPS, PDT e PV já haviam recolhido 83 assinaturas, 88 a menos do que o necessário.
O presidente do Senado tentou demover os senadores do PSDB e do PFL de tentar uma nova CPI. ''Acho politicamente equivocado que o Senado queira investigar a Câmara. Isso é politicamente errado. Havendo CPI, que seja feita pela Câmara ou seja mista'', disse Renan.
A saída do PTB do bloco de apoio ao governo no Senado mudou a composição da CPI. O partido ficou com a vaga do PP, assim o líder do governo no Congresso, Fernando Bezerra (PTB-RN), substituiu o senador Valmir Amaral (PP-DF), que havia rompido com o governo.
Membros da base aliada reclamaram da desarticulação do governo em relação à CPI. Primeiro, o líder do governo, senador Aloizio Mercadante (PT-SP), tentou adiar a reunião convocada pelo presidente do Senado para a indicação dos membros da comissão, um dia após ter anunciado o apoio à investigação. Os líderes da base reuniram-se no almoço para tentar traçar uma estratégia para a disputa da presidência e da relatoria da CPI, mas não conseguiram se articular. Eles se encontrariam novamente à noite.
Na Câmara, o dia foi de batalha na Comissão de Constituição e Justiça. O governo tentou limitar o requerimento da CPI aos Correios à investigação somente na estatal. ''A CPI, do jeito que está, não tem fato definido e pode ter a legalidade desafiada por um depoente. Precisamos torná-la constitucional para não corrermos riscos mais para a frente'', disse o deputado José Eduardo Cardozo (SP).
O PFL não aceitou e não permitiu a votação. Nesse ponto, a oposição rachou: o PSDB, que não tem interesse na radicalização da crise por ter candidato forte a presidente em 2006, fechou com os petistas. ''Naturalmente a investigação se alastraria para compra de votos'', disse o deputado Jutahy Junior (PSDB-BA).

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