São Paulo - Entidades da sociedade civil organizada demonstraram indignação com a chamada farra das passagens aéreas na Câmara dos Deputados e no Senado. O presidente da comissão de direito político e eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-SP), Sílvio Salata, disse que o uso indevido das passagens que deveriam permitir ao parlamentar somente viajar para seu Estado afronta os princípios da boa administração pública.
''Somente o próprio parlamentar deveria ter direito (às passagens) e, mesmo assim, de forma restrita. Do jeito que está, fere a moralidade e a legalidade. No caso do deputado Fábio Faria (PMN-RN), pode se constituir em falta de decoro parlamentar. É preciso um controle muito rigoroso sobre este benefício.''
Faria cedeu bilhetes para a ex-namorada, a apresentadora Adriane Galisteu, e para artistas viajarem a sua terra, em um carnaval fora de época que promove. Na quinta-feira, pressionado pela repercussão das irregularidades, o Congresso baixou normas que, na prática, oficializam o uso de passagens da instituição por pessoas indicadas pelos parlamentares. Embora mostradas como moralizadoras, as medidas favorecem a continuidade das viagens a passeio.
Oded Grajew, coordenador do Movimento Nossa São Paulo, que reúne entidades em defesa de práticas corretas de administração, também criticou o mau uso. ''Essa história tem a ver com a cultura reinante, segundo a qual dinheiro público não tem dono. Diante disso, a gente pode perguntar onde estavam os órgãos de controle interno e externo do Congresso e mesmo os parlamentares sérios, que não denunciaram nada'', reclamou.
O secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT-SP), Adi dos Santos, afirmou que as passagens aéreas para os parlamentares se constituem num privilégio indevido. ''É um mau exemplo para todo o País. O dinheiro público não pode ser usado para possibilitar privilégios'', defendeu. O presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), Ricardo Patah, também questionou o uso da vantagem pelos deputados e senadores. ''Isso demonstra um enorme desrespeito pela causa pública. É uma vergonha para a democracia brasileira.''
Da mesma forma, as entidades ligadas diretamente à defesa da participação política dos cidadãos se colocaram contrárias aos abusos no uso das passagens aéreas. ''Esse episódio, absolutamente condenável, demonstra que os parlamentares têm de ser fiscalizados de perto pelas entidades. Se não forem, eles fazem o que querem, até porque fica muito fácil ser deputado ou senador sem um acompanhamento efetivo da população'', afirmou a coordenadora do Movimento Voto Consciente, Rosângela Giembinsky.
O cientista político Gilberto Palma, coordenador do Instituto Agora em Defesa da Cidadania, fez coro. ''Se as passagens são pagas com dinheiro público, como é o caso, é preciso que haja um controle muito forte da sociedade civil. Esta é mais uma tarefa das organizações que trabalham com fiscalização de recursos públicos.''
Embora o foco do escândalo esteja no Legislativo, Palma lembrou que o Executivo também comete irregularidades semelhantes. ''O governador do Ceará, Cid Gomes (PSB), levou a sogra para viajar com recursos públicos.''

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