Congresso discute projetos impraticáveis
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sábado, 02 de agosto de 1997
Agência Estado Brasília 
Arquivo FolhaEncarregado de adegaO senador Gilberto Miranda, preocupado com o sommelier, profissão francesa pouco conhecida no BrasilO senador Gilberto Miranda (PMDB-AM) quer regulamentar a profissão de sommelier. A categoria designada pela palavra francesa que significa pessoa encarregada da adega nos restaurantes é pequena e pouco conhecida no País, mas ainda assim, o senador amazonense Gilbeto Miranda acha que merece a atenção do Congresso.
Como ele, inúmeros outros parlamentares apresentam projetos de lei inusitados ou até absurdos, que chamam a atenção porque são restritos a grupos ou circunstâncias.
Por isso mesmo, correm o risco de se transformar, depois de aprovados, em leis impraticáveis, aquelas que se costuma afirmar que não pegam.
O Senado não perde para a Câmara - que há alguns anos examinou um projeto sobre a quantidade de azeitonas que os pastéis deveriam conter - na apresentação de matérias curiosas.
O senador Júlio Campos (PFL-MT), por exemplo, tem dois projetos que geram mais problemas do que soluções.
Um deles cria moeda e cédulas para os deficientes visuais, com tamanho e forma diferentes e inscritas em Braille. Não explica como esse dinheiro paralelo se integraria ao mercado.
O outro obriga a inclusão de exames orais nos concursos públicos para empregos na administração federal e para ingresso de estudantes em escolas federais.
As provas serão gravadas e transcritas em atas assinadas por, no mínimo, três pessoas isentas que as tenham assistido, recomendou.
O assunto que preocupa o senador João Rocha (PFL-TO) é a troca de garrafas de refrigerantes e bebidas.
Ele tem um projeto de lei que autoriza a troca de vasilhames, recipientes ou embalagens de uma marca por outra em qualquer posto de venda, desde que sejam do tipo padrão utilizado por todas as marcas do produto.
O titular da marca inscrita no vasilhame não poderá impedir a sua reutilização, ainda que por empresa concorrente, assegurando ao consumidor final plena liberdade de troca dos mesmos, esclareceu o senador.
Já o senador Flaviano Melo (PMDB-AC) se interessa pela troca de baterias de telefone celular. Projeto de sua autoria obriga as lojas que comercializam baterias de celular a receberem as usadas, na hora da compra de uma nova.
Ao entregar a bateria velha, determina o senador, o consumidor deve receber um desconto de pelo menos 10% sobre preço da bateria nova que estará adquirindo.
Melo argumenta que o objetivo de seu projeto é evitar a contaminação do meio ambiente. Só que o senador se esqueceu de incluir em seu projeto, de difícil execução, pilhas e outros produtos comprovadamente tóxicos - comercializados em número muito maior do que as baterias de celular.
Alguns projetos chegam até mesmo a avançar no tempo. Tão logo foi divulgada a bem sucedida clonagem, na Escócia, da ovelha Dolly, o senador José Ignácio Ferreira (PSDB-ES) decidiu propor a proibição de clonagem de seres humanos em todo o território nacional.
A prevenção de Ferreira, se aprovada, terá o efeito de burocratizar todas as pesquisas científicas com clones de animal.
De acordo com o projeto, elas deverão ser previamente submetidas à Comissão Técnica Nacional de Biossegurança que observará sua pertinência, ética e utilidade para o desenvolvimento e a melhoria da qualidade de vida da sociedade.
Outra proposta bem intencionada, mas que ignora o direito de defesa da parte acusada, é a do senador Abdias Nascimento (PDT-RJ), que proíbe a União e empresas públicas de contratarem empresas ou pessoas que tenham apoiado regime ou ações de discriminação racial, no Brasil ou no Exterior.
A tentativa de defender os mais fracos também acaba gerando a apresentação de propostas absurdas. A senadora Marina Silva (PT-AC) ignorou o direito constitucional à propriedade privada, ao propor que não será crime a invasão de terra improdutiva, desde que feita sem violência ou grave ameaça a pessoas.
Ela própria, depois de uma discussão acalorada, retirou a proposta.
Sua colega de partido, a senadora Benedita Silva (RJ) tentou mas não conseguiu aprovar na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) o projeto de lei que garantiria aos estudantes pobres 20% das vagas das universidades públicas, com o privilégio de não ter de enfrentar o concurso vestibular.
Outros projetos têm caracteríticas ainda mais demagógicas. O senador Gilvan Borges (PMDB-AP) quer unificar as decisões da Justiça, pelo menos as que tratam de servidores públicos.
Ele é autor do projeto que estende a todos os servidores qualquer decisão definitiva de tribunal quando a demanda envolver salário. Isso asseguraria, por exemplo, a todos os servidores os 28,86% concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a apenas 11 funcionários.


