Brasília - Na última quarta-feira, o ministro da Educação, Fernando Haddad, dedicou pelo menos duas horas de sua apertada agenda para participar, no Congresso, do lançamento da Frente Parlamentar em Defesa do Piso Salarial dos Professores. Foi a 71 frente criada por parlamentares em menos de dois anos. Há, hoje, em funcionamento na Câmara e no Senado, frentes parlamentares para todos os gostos e lobbies - desde as contrárias à legalização do aborto até as que tratam de temas específicos, como a regulamentação da profissão de mototaxista e motoboy.
A Frente Parlamentar em Defesa do Piso Salarial dos Professores está incluída naquela categoria de ''frente da moda'', tamanha a banalização do expediente. Afinal, é de bom tom defender o estabelecimento do piso de R$ 950 mensais para os professores de ensino básico, mesmo que os governadores sejam contra. ''É uma loucura fazer uma frente para que uma lei aprovada pelo Congresso e sancionada pelo presidente seja cumprida'', afirma o deputado Chico Alencar (PSOL-RJ), que participa de nada menos do que 17 frentes parlamentares, entre elas, a que defende o piso dos professores.
''Na lógica do Executivo, quando não se sabe o que fazer cria-se um grupo de trabalho. Na lógica do Legislativo, cria-se uma frente'', resume Alencar. ''Essa profusão de frentes se dá em razão da debilidade dos partidos'', diz o deputado Flávio Dino (PC do B-MA), ao revelar que participa de ''umas 20 frentes'', mas atua efetivamente ''em umas três''.
Essas frentes são criadas geralmente para atender a interesses específicos dos parlamentares, transformando-se em muletas eleitorais. É o caso, por exemplo, do deputado Marcelo Ortiz (PV-SP) que, depois de 17 anos como provedor da Santa Casa de Misericórdia de Guaratinguetá (SP), lançou a Frente Parlamentar de Apoio às Santas Casas, Hospitais e Entidades Filantrópicas na área da Saúde. Representante de Santa Catarina, um dos Estados que detêm as principais reservas de carvão mineral, a líder do PT no Senado, Ideli Salvati, criou a Frente Parlamentar Mista em Defesa do Carvão Mineral, em outubro do ano passado.
Deputados e senadores não se arriscam, no entanto, a abrir frentes sobre temas polêmicos. O combate ao aborto é motivo de pelo menos quatro delas. Não há, no entanto, nenhuma em defesa da descriminalização do aborto. De maneira geral, os parlamentares sequer sabem quais frentes integram. ''Já esqueci de quais faço parte. Só assino os pedidos, não participo'', admite o deputado Vic Pires Franco (DEM-PA).

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