Rio de Janeiro - A ausência do presidente da Argentina, Néstor Kirchner, criou constrangimentos e evidenciou a perda de força política e de objetivos do Grupo do Rio, criado em 1986 e hoje integrado por 19 países latinos das três Américas e do Caribe. A Argentina é o principal parceiro do Brasil, e as justificativas de Kirchner para não vir não convenceram. Esvaziado e sem consenso no que de fato interessa, o Grupo do Rio encerrou ontem quatro dias de reuniões no Rio de Janeiro, dois deles com 11 presidentes. Como Kirchner não apareceu, a entrevista de três presidentes (Brasil, Argentina e Peru), praxe nas cúpulas, foi substituída pela dos três chanceleres.
Não houve um consenso sobre uma missão conjunta para o Equador e nem clima para discutir a questão política mais delicada das três Américas - a de Cuba. O principal assunto acabou sendo o Haiti. Em vez de propostas concretas para o continente, os presidentes, diplomatas e assessores cochichavam ontem, dia do encerramento, sobre a ausência de Kirchner, que alegou compromissos inadiáveis em Buenos Aires, mas apareceu em fotos dos jornais de ontem com tempo disponível na agenda até para receber grupos de jovens no palácio de governo.
Na entrevista final do Grupo do Rio, o chanceler argentino, Rafael Bielsa, irritou-se com um repórter brasileiro que lhe perguntou sobre a ''injustificável'' ausência de Kirchner: ''Injustificável para o senhor! Da próxima vez, escolha bem o adjetivo a usar'', respondeu, alterando a voz. Em conversas reservados, porém, o próprio Bielsa se mostrou incomodado pela ausência do presidente, que tem, por exemplo, criado atritos com o Brasil em função do comércio de geladeiras e fogões.
A entrevista dos três presidentes acabou sendo substituída pela dos chanceleres Bielsa, Rodriguez e Celso Amorim (Brasil), que resumiram a ''Declaração do Rio de Janeiro'', com 22 itens, seis deles sobre o Haiti, e seis comunicados conjuntos sobre temas específicos: combate ao terrorismo em geral e as situações políticas de Nicarágua, Costa Rica, Bolívia e Equador.
Apesar das discussões das delegações técnicas e dos chanceleres, que precederam as reuniões dos presidentes, não houve consenso sobre uma das ações concretas mais esperadas: a formação de uma espécie de comissão para respaldar o governo do Equador, ameaçado por um pedido de impeachment apresentado pela oposição. Do Equador, autoridades recusaram a interferência externa.
Mais importante do que a reunião do grupo em si, foram os contatos bilaterais que os presidentes aproveitaram para fazer. Lula, por exemplo, se reuniu com Alejandro Toledo (Peru) e almoçou com Chávez. Com Toledo, acertou que o Brasil financiará exportações de bens e serviços até US$ 417 milhões para viabilizar a construção de uma estrada entre os dois países, criando condições para uma ligação do Brasil com o oceano Pacífico.

mockup