O depoimento do empresário Henrique César Galli, diretor em Londrina da Principal Vigilância, Serviços e Treinamentos, ao Ministério Público (MP) revela que a Comurb (atual CMTU) pagou serviços de segurança em comícios do deputado estadual Antonio Carlos Belinati (sem partido) durante a campanha de 98. Em agosto deste ano, Galli prestou depoimento ao MP para explicar os contratos que a Prefeitura de Londrina mantinha com a Principal. Segundo ele, o depoimento foi para dar esclarecimentos a ‘‘fatos que ainda estavam obscuros’’.
O empresário disse que ‘‘em junho ou julho de 97’’, o ex-diretor-financeiro da Comurb, Eduardo Alonso, passou a abordar as empresas do Grupo Tâmara e Principal ‘‘com a finalidade de exigir dinheiro quando órgãos públicos fizessem pagamentos às empresas citadas’’. Galli afirmou que Alonso só autorizava os pagamentos, caso as empresas pagassem valores que variavam de R$ 15 mil a R$ 20 mil. ‘‘Quando exigia dinheiro, Alonso falava que essas verbas iriam para o prefeito Belinati ou para campanhas eleitorais’’, afirmou.
Galli contou em depoimento que Alonso mandava fazer serviços em ‘‘locais variados’’, não previstos em contrato. Galli relacionou serviços de segurança pessoal na casa de Alonso, de Kakunen Kyosen (ex-presidente da Comurb) e um vigilante e uma copeira no comitê de Antônio Carlos Belinati na Rua Rio Grande do Norte, durante a campanha eleitoral. De acordo com o empresário, a Principal também colocou ‘‘de 12 a 15 homens com carros e equipamentos’’ em todos os comícios da campanha eleitoral de Belinati.
Um fato curioso revelado por Galli é que os seguranças da Principal tiveram um trabalho ‘‘extra’’ no final de 98. Além de fazer o serviço de vigilância durante um auto de natal patrocinado pela Sercomtel, os funcionários da Principal foram convocados para exercer o papel de figurantes durante o espetáculo. ‘‘O Presépio’’ foi criado e dirigido por Waldmir Belinati, ex-diretor da Sercomtel e irmão do prefeito cassado Antonio Belinati (sem partido).
Alonso negou que tenha exigido dinheiro do empresário. Segundo ele, o acerto com a Principal era responsabilidade do ex-secretário de Governo, Gino Azzolini Neto, e do empresário Cassimiro Zavierucha, o ‘‘Carlos Júnior’’, apontado como tesoureiro das campanhas do prefeito cassado. Ele disse ainda que a segurança em comícios era responsabilidade da coordenação de campanha.
‘‘Qualquer pagamento era autorizado pelo Carlos Júnior ou pelo Gino Azzolini. Jamais fiz qualquer pagamento ou coleta para campanhas e eu tamém não era o presidente da Comurb’’, justificou. Segundo Alonso, os repasses do Fundo de Urbanização de Londrina (FUL) à Comurb já saíam da prefeitura com destinação específica. ‘‘Carlos Júnior’’ disse apenas que as declarações de Alonso ‘‘não têm fundamento’’.
Azzolini Neto afirmou que nunca teve relacionamentos com a Comurb ou qualquer outra empresa. ‘‘Nem antes, durante ou depois da campanha. Há sempre essa tentativa de jogar a responsabilidade para os outros. É preciso parar com isso’’. Segundo ele, quem mantinha os contatos com empresas era a direção da própria Comurb.
Procurado pela Folha, Galli não quis comentar o depoimento prestado ao MP em 22 de agosto. ‘‘Tudo o que foi dito está em meu depoimento’’, resumiu. Ele acrescentou, porém, que nunca conversou com o deputado e nem foi abordado diretamente por Belinati. Apesar de a empresa não prestar mais serviços para o município, Galli alega que a prefeitura ainda lhe deve ‘‘mais de R$ 500 mil’’.
O deputado Antonio Carlos Belinati também foi procurado diversas vezes em seu gabinete na Assembléia Legislativa. Apesar dos recados deixados com seus assessores, não houve retorno das ligações. Já o pai do deputado, o prefeito cassado Antonio Belinati, afirmou que não ia aos comitês de campanha. ‘‘Mas um empresário deveria saber que isso é irregular. Os culpados por essa irregularidade devem ser punidos’’, afirmou.
Até agora, o Ministério Público apurou desvios de R$ 16 milhões dos cofres da prefeitura, mas o rombo pode chegar a R$ 200 milhões. A Comurb e a Autarquia Municipal do Ambiente (AMA) foram os pivôs do escândalo, que utilizou principalmente licitações fraudulentas.

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