Em quase sete horas de audiência na tarde de ontem os seis réus no processo que apura a compra de apoio político de vereadores em Londrina foram interrogados diante do juiz da 3 Vara Criminal, Katsujo Nakadomari, e defenderam a tese de que foram vítimas de ''armação'', embora tenham entrado em contradições em várias declarações. Foi a última audiência do caso. Agora promotor e advogados apresentam alegações finais e, depois, o juiz poderá conceder a sentença.
Os principais fatos narrados na denúncia do Ministério Público (MP) é a entrega de propina ao vereador Amauri Cardoso (PSDB) para que votasse contra a abertura da Comissão Processante (CP) da Centronic contra o ex-prefeito Barbosa Neto (PDT), e o suposto oferecimento de vantagem indevida ao vereador Eloir Valença (PHS). Amauri gravou conversas com aliados do ex-prefeito (que acabaria cassado justamente em razão do caso Centronic). Além de Eloir, são réus o ex-presidente da Sercomtel, Roberto Coutinho Mendes, o ex-diretor de Participações da telefônica Alysson Tobias de Carvalho, o ex-chefe de Gabinete Rogério Lopes Ortega, o ex-secretário de Governo Marco Cito e chef de cozinha Ludovico Bonato.
O começo da nova história foi contada por Bonato, amigo de longa data de Barbosa. Preso em flagrante no dia 24 de abril ao entregar R$ 20 mil para Amauri para que ele votasse contra a abertura da CP, Bonato disse, perante o juiz, que todo o dinheiro - que guardava dentro de um saco de arroz em sua residência - era seu. O valor seria um empréstimo ao ''amigo'', a quem conhecia havia muitos anos.
No dia de sua prisão, o chef afirmou em depoimento informal a promotores e policiais do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) que pegou um envelope com o dinheiro do ex-secretário de Governo Marco Cito na prefeitura. O recurso teria sido entregue a Cito por Alysson. A mudança de versão causou tensão. O promotor Cláudio Esteves insistiu em saber porque Bonato não fez essas afirmações no momento de sua prisão. Bonato alega que estava abalado e que sua ''pressão subiu''.
Bonato também deu nova interpretação à conversa gravada por meio de interceptação telefônica na qual diz Rogério que ele estava lhe devendo um almoço depois do ''sufoco'' que passara. No entendimento do MP, em razão do horário da ligação, tratava-se da entrega de propina. Na nova versão de Bonato, ele teria passado ''um sufoco'' ao entregar panfletos no Jardim União da Vitória (Zona Sul) para convidar pessoas favoráveis a Barbosa para a sessão de abertura da CP. Alegou ter sido intimidado por um rapaz em uma motocicleta.
Cito sustentou a versão dos panfletos, embora tenha entrado em contradição com algumas declarações de Bonato e de Rogério. Também afirmou que era Amauri quem lhe pedia dinheiro e não ele que oferecia, embora, as gravações do Gaeco mostrem cenas diferentes. Ele foi o único dos réus a falar com a imprensa. Disse que ''finalmente pude dizer de fato o que realmente aconteceu''. ''Acredito que a Justiça vai ser feita.'' Cito ficou 71 dias preso em razão do processo.
Coutinho confirmou que emprestou dinheiro a Alysson, porém, afirmou que foram apenas R$ 1 mil para que ele fizesse uma viagem para Curitiba com a finalidade de resolver questões do PDT. Coutinho disse que não sabia do que se tratava a viagem, embora presidisse a legenda na época. Alysson e Rogério, que também iria à capital com Alysson, disseram, porém, que Coutinho sabia do motivo da viagem, que tinha dado instruções aos dois.
O MP sustenta que Coutinho sacou de sua conta particular no pronto atendimento bancário, no interior da Sercomtel, R$ 5 mil e entregou este valor a Alysson para que pagasse parte da propina a Amauri. Coutinho disse que utilizou R$ 4 mil para pagar um carro usado que havia comprado para utilizar em sua propriedade rural. Embora Alysson tenha dito que prestaria contas ao partido, admitiu que não pegou nota no posto de combustível onde abasteceu e trocou o óleo do carro. Também chama a atenção que não há nos autos qualquer documento que prove a visita agendada ao PDT de Curitiba.
Eloir Valença disse que sempre foi favorável à abertura de uma CP contra Barbosa até o momento que a Câmara aprovou a retirada do nome de um então colega de partido, o vereador Jacks Dias (PT), do relatório. O petista teria cometido irregularidades enquanto era secretário de Gestão Pública de Nedson Micheleti.
Para o promotor Cláudio Esteves houve ''uma série de incongruências e inconsistências'' nos depoimentos. ''Todas as vezes que os réus se contradizem em pontos fundamentais isso traz importante dúvida quanto à veracidade do que estão afirmado, mas posso dizer apenas que foram notáveis e importantes contradições.'' Sobre o fato da nova versão de Bonato, Esteves afirmou que ele perde o benefício de redução da pena em razão da confissão e explicou que se trata de estratégia bastante comum. ''O sistema brasileiro permite esse tipo de comportamento do réu. O acusado não é obrigado a dizer a verdade.''
Os réus aproveitaram os interrogatórios para reclamar dos prejuízos que sofreram com as investigações, sendo ''inocentes''. Coutinho e Bonato disseram: ''Eu não sou bandido, eu não sou quadrilheiro.'' Alysson e Eloir falaram sobre problemas de saúde decorrentes da prisão e o primeiro disse ter pensado em atentar contra a própria vida.

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