Arquivo/Agência Estado
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Enfim, justiçaZuzu Angel: depoimento de uma testemunha ocular mudou o rumo do casoA Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério da Justiça reconheceu ontem, por quatro votos a três, que a estilista Zuleika Angel Jones, Zuzu Angel, foi ‘‘vítima de atentado político’’. Durante 22 anos prevaleceu a versão oficial, confirmada pela comissão, em setembro de 97, de que a estilista havia morrido em um acidente de carro porque dormiu ao volante. A família de Zuzu deve receber indenização de R$ 100 mil, segundo estimativa do presidente da comissão, Miguel Reale Júnior.
A decisão da comissão foi revista ontem durante análise de um novo pedido de indenização, apresentado pela família de Zuzu. A maioria da comissão convenceu-se de que a estilista estava acordada na hora do acidente e caiu no viaduto depois de ser fechada por um carro. Segundo o relator, Luís Francisco de Carvalho Filho, a versão oficial defendia que o carro havia batido no meio-fio do lado esquerdo da pista, mudado sua trajetória e percorrido 28 metros até bater no meio-fio do lado direito; aí teria mudado novamente de trajeto, andado mais 9 metros até bater na mureta do viaduto e cair de seis metros de altura.
A comissão recuou após receber parecer preparado pelos peritos Valdir Florenzo e Ventura Raphael Martello Filho, com base em provas surgidas com o depoimento do advogado Marcos Pires, testemunha do acidente. Os peritos informam que Zuzu freou o carro e, portanto, estava acordada antes de cair do viaduto e capotar várias vezes. Os especialistas chegaram a essa conclusão por causa da lesão encontrada no perônio direito da estilista, que seria ‘‘típica de compressão transmitida pelo pedal do freio no momento do impacto’’.
O advogado Marcos Pires contou, em novo depoimento, estar encostado na janela de sua casa olhando para o lado do túnel quando viu um carro fechar o karmann-ghia de Zuzu. ‘‘Eu vi dois carros em movimento; vi quando o carro que ultrapassa o da direita o abalroa e faz com que ele caia a uma distância que estimei na hora em cinco metros’’, disse num dos trechos do depoimento. O advogado conta ainda que ele e seus amigos desceram correndo, no que gastaram menos de cinco minutos, e quando chegaram no local do acidente já havia ‘‘um aparato policial’’ que os impediu de se aproximar. Eles estranharam o aparecimento tão rápido de policiais.
Com o novo parecer, o relator exibiu na reunião de ontem o vídeo com simulações do acidente preparado pelos peritos Florenzo e Martello Filho. Com as imagens do computador, eles opõe a versão oficial e a relatada pela testemunha do acidente. E ainda apresentam a imagem de um carro desgovernado, numa velocidade de 10 km, subindo com facilidade o meio-fio. ‘‘Isso contraria a versão oficial de que o carro mudou de trajetória ao bater no meio-fio’’, disse o relator. Ele estranhou ainda que se tenha preparado um laudo cheio de detalhes (sete páginas e 16 fotografias). ‘‘Minha convicção é de que o laudo é falso e tantos detalhes só se justificam para reforçar a versão de que Zuzu dormiu ao volante ou estava sem os reflexos normais’’, defendeu. Também questiona o laudo por não conter fotos com as marcas da derrapagem do carro no asfalto.
A votação do caso Zuzu foi apertada. Miguel Reale Junior deu o voto de desempate. Ficaram contra o relator o general Osvaldo Pereira Gomes, que representa o Exército, o do Ministério Público, Paulo Gustavo Gonet, e o do Itamaraty, Grandino Rodas.
‘‘Não fiquei convencido de atentado por agentes do Estado’’, disse o general. Em sua opinião, mesmo que se provasse a violência, não seria o caso de enquadrar a estilista na lei que criou a indenização para os parentes de vítimas da repressão. Pereira Gomes lembra que a lei prevê indenização apenas nos casos em que a vítima foi morta dentro de instalações policiais ou assemelhados. Mas a comissão já havia aprovado indenização para a família do guerrilheiro Carlos Lamarca, morto na caatinga, na Bahia.
A comissão volta a reunir-se no dia 5 de maio para analisar os últimos seis casos, entre eles o da guerrilheira Iara Iavelberg, companheira de Lamarca. A versão oficial é de que ela se suicidou, mas a zeladora do prédio onde Iara morreu, Evandir Rocha, conta ter ouvido a guerrilheira dizer que se renderia, sendo morta mesmo assim.

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