Brasília - O ingresso da Venezuela no Mercosul foi aprovado ontem, na Comissão de Relações Exteriores (CRE) do Senado, por 12 votos favoráveis e apenas cinco contrários. O placar é produto do lobby de empreiteiros e empresários que têm interesses econômicos no País vizinho, somado à pressão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre os senadores. Lula, que está em sua quarta visita este ano à Venezuela, pode dar pessoalmente a boa notícia ao presidente Hugo Chávez, na certeza de que o plenário do Senado confirmará, na semana que vem, a decisão da Comissão.
Como o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul já foi aprovado pela Câmara, o governo não terá dificuldade em repetir a façanha no plenário do Senado. Para isto, bastará garantir a presença mínima de 41 dos 81 senadores e o voto favorável da maioria destes, ou seja, 21 parlamentares. A força do lobby do empresariado pode ser traduzida em números. A Venezuela importa 70% de tudo o que consome e representa o maior superávit da balança comercial brasileira. Já é nosso sexto maior destino comercial.
Nos primeiros cinco anos de governo Lula, as exportações brasileiras para a Venezuela cresceram 758%, saltando de US$ 608 milhões para US$ 5,15 bilhões. Além disso, o governo tem destacado que cerca de 72% das nossas exportações para a Venezuela são de produtos industrializados, com elevado valor agregado e alto potencial de geração de empregos. Hoje, o Brasil tem com a Venezuela seu maior saldo comercial: US$ 4,6 bilhões dólares, 2,5 vezes superior ao obtido com os Estados Unidos (US$ 1,8 bilhão).
Foi diante deste quadro que empreiteiras e representantes de vários setores da produção atuaram no Congresso em favor de Chávez. Um dos líderes da base aliada recorda que o embaixador Paulo de Tarso Flexa de Lima foi à Comissão de Relações Exteriores, ''com toda a elegância em defesa dos interesses da construtora Norberto Odebrecht'', argumentando que se o Senado não ampliasse o Mercosul rapidamente, a Venezuela se abriria aos produtos chineses em detrimento dos brasileiros.
O líder tucano no Senado, Arthur Virgílio (AM), contou que as entidades empresariais do Amazonas apelaram a ele em favor da Venezuela, sob o argumento de que a ampliação do bloco ao país vizinho seria vantajosa para o Amazonas. Ainda assim, Virgílio manteve-se alinhado ao parecer do relator Tasso Jereissati (PSDB-CE), que recomendara o veto à adesão da Venezuela ao bloco.
Como alternativa, Virgílio e o líder do DEM, José Agripino (RN), argumentaram que a saída seria a criação de área de livre comércio com a Venezuela. A esperança da oposição, agora, é que o próprio Chávez ponha a perder a aprovação iminente no plenário. Eles avaliam que o presidente venezuelano é ''incontrolável'' e que, por isto mesmo, corre o risco de falar uma ''besteira'' a qualquer momento, contaminando a votação no Senado.
Também esperam contar com a presença do senador Fernando Collor (PTB-AL) para virar votos à última hora. Raro caso de governista que defendeu publicamente o veto à Venezuela, Collor passou esta semana viajando e faltou a votação de ontem, depois de ter sido chamado ao Planalto pelo presidente Lula, que assumiu a defesa pública do governo Chávez e entrou pessoalmente na caça aos votos na Comissão.
A maioria governista na Comissão de Relações Exteriores também prevaleceu na votação do requerimento apresentado pelo senador Mozarildo Cavalcanti (PTB-RR), propondo que um grupo de senadores vá à Venezuela para verificar as violações à democracia denunciadas pelo prefeito de Caracas, Antonio Ledezma. A proposta foi derrubada por 10 votos contrários frente aos oito senadores que queriam usar a visita para adiar a decisão de ampliar o Mercosul.
Jereissati ainda insistiu em frisar que, do ponto de vista econômico, será impossível manter uma relação comercial com políticas tributárias, fiscais e um acordo tarifário comum, com a ampliação do bloco. O tucano destacou também que, diferentemente do sistema de câmbio flutuante vigente no Brasil, o que existe na Venezuela é a centralização cambial que obedece à vontade de Chávez e já foi usada contra o Brasil em negociações anteriores.

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