Arquivo FolhaEncerrando o trabalhoRoberto Requião: rastrear cheques será tarefa da Polícia FederalDivergências internas estão levando os integrantes da CPI dos Títulos Públicos a discutir os limites de suas investigações e a se preparar para o encerramento dos trabalhos. Não há mais consenso sobre a necessidade de prorrogar por 45 dias, depois de 22 de abril, o prazo para apresentação do relatório final. Os senadores admitem também que a comissão não vai ter como descobrir onde foi parar o lucro, estimado em cerca de R$ 103 milhões, movimentado pelas corretoras e bancos a partir dos altos deságios concedidos por Estados e municípios ao vender seus títulos.
Ontem até o relator da CPI, senador Roberto Requião (PMDB-PR), admitiu que a comissão não completará a investigação bancária. ‘‘Rastrear cheque não será tarefa dos senadores; quem vai fazer isso é a polícia’’, disse. Segundo Requião, a CPI fornecerá à Polícia Federal (PF) e ao Ministério Público Federal (MPF) ‘‘um roteiro do dinheiro’’.
O relator quer pelo menos uma prorrogação de 45 dias para concluir seu relatório. Já o líder de seu partido, senador Jáder Barbalho (PA), defendeu o encerramento dos trabalhos. ‘‘A CPI está patinando muito’’, disse Barbalho, que apresentou ontem um projeto de resolução para criar no Senado uma comissão mista permanente do sistema financeiro público e privado. Essa comissão, segundo Barbalho, ocuparia no Senado o espaço deixado pela CPI.
Para o líder do PMDB, as sessões da CPI estão se tornando inúteis. ‘‘Os depoimentos estão muito articulados e repetitivos’’, declarou. Jáder Barbalho disse que a CPI já coletou informações suficientes para mostrar ao Ministério Público e à Polícia Federal como foi montado o esquema dos precatórios. ‘‘O importante é que a CPI não vai terminar em pizza’’, destacou.
Responsável pela investigação sobre o destino final do lucro proporcionado pela ‘‘corrente da felicidade’’, o senador Romeu Tuma (PFL-SP) também considera limitadas as possibilidades de investigação. ‘‘Eu estou fazendo o que é possível, mas não vou conseguir sozinho checar esse mundo de cheque e transação bancária’’, reclamou. Tuma disse ter ‘‘consciência’’ de que esse trabalho terá que ser feito ‘‘além da CPI’’.
Ao contrário da CPI que investigou o esquema PC e as fraudes no Orçamento, a CPI dos Títulos Públicos não se dividiu em subcomissões. Nessas duas CPIs, a principal subcomissão era a de bancos, que dispunha de vários assessores encarregados de cruzamento das informações resultantes da quebra de sigilo dos investigados. ‘‘Eu estou trabalhando por minha conta e mando os extratos para o Requião, que não aguenta mais receber papel’’, contou Tuma. ‘‘E o Paulo Lacerda (ex-delegado da PF, instalado na sede do Banco Vetor) está trabalhando praticamente sozinho’’, completou.
Foi Requião quem não aceitou a criação de subcomissões. As exigências do relator, cada dia mais frequentes, dificultam o relacionamento com os colegas de comissão e com o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA). Na sessão de segunda-feira, por exemplo, Requião se desentendeu até com o presidente da CPI, senador Bernardo Cabral (PFL-AM), e com o vice-presidente, Geraldo Melo (PSDB-RN).
Primeiro Requião não queria permitir que o presidente do Bradesco, Lázaro Brandão, lesse um pronunciamento. ‘‘O presidente sou eu e ele vai ler sim’’, rebateu Cabral. Depois, sem falar a palavra ‘‘renúncia’’, Requião ameaçou se retirar da comissão, caso os diretores do Banestado fossem ouvidos de uma só vez, como havia sugerido Geraldo Melo. ‘‘Renuncia uma ova’’, reagiu Melo, irritado.
Bernardo Cabral, como o senador Esperidião Amin (PPB-SC), também já avaliaram que a CPI ‘‘descobriu muita coisa’’ e está no seu limite. ‘‘Não se pode alimentar falsas esperanças na sociedade’’, tem dito Cabral, sobre o alcance de eventuais punições pedidas pela CPI. No cronograma da comissão, ainda falta ouvir os senadores que relataram os pedidos de emissão de títulos e os políticos envolvidos no escândalo.

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