São Paulo - Nunca houve um Natal com tantas promoções de preço e prazo de pagamento como este. O comércio, do popular ao mais sofisticado, aposta tudo nas barganhas para acelerar por conta própria o consumo. As lojas remam contra a maré dos juros básicos ainda elevados, em 18,5% ao ano, que recuam a passos de tartaruga desde setembro.
Os números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostram que o consumo das famílias, ao lado das exportações, são os únicos componentes do Produto Interno Produto (PIB) que apresentaram algum crescimento do 2º para o 3º trimestre (0,8%). A tentativa dos empresários é pelo menos manter esse ritmo de alta.
''Este Natal está mais promocional'', afirma o diretor das Casas Bahia, Michael Klein. A aposta da sua empresa é no cartão de crédito que leva a marca da rede, em parceria com o Bradesco e a Visa. Por meio desse cartão, é possível parcelar as compras em até 24 vezes com juros de 3,5% ao mês. Antes do lançamento do cartão, o parcelamento máximo no cartão de crédito aceito pela rede chegava a 12 meses. Entre 20 e 30 de novembro, foram ativados 2 mil cartões por dia, segundo o diretor de cartões do Bradesco, Marcelo Noronha.
Segundo Klein, que projeta crescimento de 20% nas vendas deste Natal - 15% em razão da expansão da rede e 5% levando em conta as mesmas lojas -, a investida no prazo de pagamento alongado para encolher o valor da prestação é concorrer de perto com o comércio popular.
O movimento registrado pelos comerciantes da Rua 25 de Março, em São Paulo, um dos ícones do consumo popular, é o típico exemplo de que o consumidor só quer gastar o que é compatível com a sua renda.
O presidente da União dos Lojistas da 25 de Março (Univinco), Jorge Sucar Dib, que representa cerca de 350 lojas da região, conta que diariamente cerca de 600 mil pessoas circularam pelas lojas da 25 de Março nas últimas semanas, volume superior à média, que é de 400 mil. A expectativa dos comerciantes da região é de um crescimento de 7% nas vendas deste ano ante 2004.
O Extra, do Grupo Pão de Açúcar, é outro varejista que optou por facilitar o pagamento e dar descontos. O diretor de Marketing, Luiz Carlos Costa, conta que a rede elegeu itens que serão vendidos com abatimentos de até 50%. Nos eletrônicos, a primeira parcela do crediário em até 36 meses é para fevereiro. No mês passado, era para janeiro. Até a Daslu, a loja mais sofisticada do País, aceita pagamento parcelado no cartão de crédito para compra acima de R$ 1 mil.
Concorrência - Não é sem motivos que o comércio decidiu alongar os prazos de pagamento neste fim de ano para enfrentar a concorrência do comércio popular, que vende itens de baixo valor. No mês passado, a taxa de crescimento das consultas para vendas à vista superou a das vendas do crediário, movimento que não ocorria desde abril deste ano.
Em novembro, o número de consultas para vendas quitadas com cheque à vista e pré-datado cresceu 6,1% em relação ao mesmo período de 2004, segundo pesquisa da Associação Comercial de São Paulo (ACSP). Enquanto isso, o volume de consultas para negócios a prazo aumentou em ritmo menor: 3,9% em novembro, na comparação anual.
''Houve uma inversão no perfil das vendas'', afirma o economista da ACSP, Emílio Alfieri. Entre maio e outubro, o ritmo de crescimento do crediário superava de longe o das vendas quitadas com cheque à vista ou pré-datado, sinal de que o crédito estava sustentando um faturamento mais polpudo das lojas. No mês passado, no entanto, a situação mudou.
Na opinião do presidente da ACSP, Guilherme Afif Domingos, o forte aperto monetário iniciado em setembro do ano passado pelo Banco Central, que derrubou o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre, se refletiu nas vendas financiadas do mês passado. Tanto é que o ritmo de crescimento das consultas para o crediário perdeu fôlego.
De janeiro a outubro, o número de negócios financiados crescia 5,5% na comparação anual. Até novembro, essa taxa se reduziu para 5,3%. Já as vendas à vista melhoraram o desempenho no mesmo período: cresciam 2,8% de janeiro a outubro deste ano ante os mesmos meses de 2004 e, no acumulado de janeiro a novembro, aumentaram 3,2%.

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