O presidente Fernando Henrique Cardoso não poupou telefonemas, audiências e jantares. O comando político do governo fez o que pôde e os nove governadores do PMDB bem que se esforçaram em reuniões que avançaram pela madrugada do domingo, mas deu tudo errado. Desinformação, erros de avaliação, declarações imprudentes e interferências de ministros na disputa pelo comando do Senado puseram governo e PMDB em confronto. A convenção nacional do partido acabou complicando o calendário da reeleição.
Todo o empenho do Palácio do Planalto e seus aliados nos últimos dias foi para evitar que a convenção do PMDB produzisse resultados. Convocados a ajudar o governo, os nove governadores do PMDB estiveram em Brasília no sábado para um jantar com o presidente Fernando Henrique. Todos, entre eles o gaúcho Antônio Britto - que tivera uma prévia com o presidente e circulara pelo Congresso à tarde -, jantaram no Alvorada certos de que a convenção não daria em nada.
‘‘Estávamos todos na agonia dos Estados e ninguém acompanhou muito isto aqui’’, confessou um dos governadores ao se revelar perplexo com a aprovação do requerimento que proíbe a votação da emenda da reeleição antes de 15 de fevereiro. ‘‘Levamos ao presidente a reclamação contra a interferência de ministros na disputa pela presidência do Senado, mas o clima de um encontro social nunca fica quente’’, contou Britto. ‘‘O que houve de mais pesado no jantar foi a lasanha’’, brincou o governador do Rio Grande do Norte, Garibaldi Alves Filho.
Foi depois da conversa com o presidente que o clima pesou e os ânimos se acirraram. Do Alvorada, os governadores dirigiram-se ao Congresso para um encontro com o presidente do partido, Paes de Andrade (CE). Tudo para dar prosseguimento à operação do governo, montada para que a convenção nada decidisse. A investida seria para convencer Paes a não pôr a voto a tese da reeleição-já, mas foi mal sucedida.
Os governadores cobraram de Paes suas declarações contra a reeleição. ‘‘Não está certo o presidente do partido fazer propaganda anti-reeleição’’, cobrou o gaúcho Britto. A conversa foi áspera. Paes rebateu dizendo que o outro lado, sim, tem ‘‘cabos eleitorais e devotos fervorosos’’. O único resultado foi um acerto quanto à cédula de votação. ‘‘Brigamos com Paes para que não houvesse moção nem cédula até de madrugada, mas não houve acerto’’, informou Britto.
Só ontem pela manhã, já na convenção, os governadores se deram conta de que a insatisfação dentro de suas próprias bancadas, tidas como fechadas em favor da reeleição e do calendário da emenda, era muito maior do que eles imaginavam. ‘‘O fato é que os governadores perderam o controle de suas bancadas’’, constatou um cardeal do PMDB. A irritação maior vinha de Goiás, mas àquela altura já havia contaminado apoios certos ao governo, como o da Paraíba. Foi nesse clima que se criou uma espécie de convenção paralela. Enquanto os militantes e as claques pró e anti-reeleição lotavam o plenário, deixando de fora os convencionais que tinham voto, todo o primeiro time do PMDB (incluem-se aí líderes, vice-líderes, ex-presidentes, candidatos à presidência da Câmara e do Senado e os nove governadores) fazia uma convenção paralela no gabinete da quarta secretaria da Câmara.
‘‘O clima era de absoluta irritação com a dualidade do governo’’, admitiu Britto. ‘‘Enquanto o presidente diz que não se mete na disputa no Senado, ministros passam a noite dando telefonemas e criando dificuldades.’’ Foi diante dessa situação que ele próprio propôs um acordo: todos aprovariam uma moção nomeando uma comissão especial do partido com plenos poderes para renegociar o calendário de votação da emenda da reeleição.
A fórmula que preservaria o candidato da Câmara, Michel Temer (SP), que já tinha a garantia do apoio do governo e seus aliados do PFL e PSDB, acabou atropelada pelo requerimento que adia a votação. No comando da convenção, o deputado Marcelo Barbieri (SP), anti-reeleição, pôs o requerimento em votação e encerrou a reunião de cúpula. ‘‘Foi um golpe, e eu não tenho mais o que fazer aqui’’, disse o governador José Maranhão (PB).

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