Com asco, respondo
Em texto aqui publicado (Eu confesso, Alberto, 27/03), disse que nada mais tinha a dizer ao sr. Dines, e sim a quem o assalaria. Desfaço o compromisso. Não pelo vomitório que emporcalha o conjunto de seu artigo de 30/03. Dele pinço enojado tão somente uma insinuação: a de que sou anti-semita. Na verdade o sr. Dines não usou as cruas palavras que escrevo: anti-semita. Covardemente, faz um jogo de frases, atribuindo-me o preconceito.
E por que isso?
Porque em meu texto, contradizendo uma afirmação do sr. Dines (a de que a esquerda revolucionária alemã assistira siderada ao avanço hitlerista), disse que Rosa Luxemburgo e seus espartaquistas (a verdadeira esquerda revolucionária alemã) haviam sido exterminados pelos antecessores das SS, em 1919/20, diante da complacência geral. E incluia entre os complacentes os liberais, os sociais-democratas e os socialistas louros, assim aspeados numa óbvia alusão aos nossos socialistas morenos a um dos quais o sr. Dines serve, a soldo grosso, como é voz corrente no Paraná.
Nota: as aspas em morenos é uma homenagem a uma boa parcela do pedetismo paranaense, toda ela egressa da Arena (Lerner foi duas vezes prefeito nomeado de Curitiba pelos militares, Médici e Figueiredo). E as aspas evidentemente não emolduram os nossos legítimos socialistas morenos, como Brizola, Darci Ribeiro, Abdias do Nascimento, Davi Le.(ilegível na transcrição), os Rift (pai e filho), Aarão Steinbruk e tantos outros que amargaram o duro exílio e não se omitiram na brava resistência à ditadura.
No entanto, o sr. Dines, ou por não ter percebido a óbvia ilação ou por desonestidade ou cego pelo rancor servil, vê na minha alusão aos socialistas louros uma referência aos judeus. E, alucinado, sujando-se na própria incontinência, desanda a falar em auto-de-fé, campo de concentração, lager.
Confesso, de novo confesso, Alberto: quando li isso quedei-me em profundo espanto. Reli, mas as suas palavras estavam lá, impressas com todas as letras. Quedei-me em profundo espanto para, em seguida, ver-me possuído por um sentimento de embaraço, constrito. Causa pena e dor vê-lo, outrora brilhante e autônomo, hoje sujeito ao ofício de escriba assalariado. E, mesmo que o soldo seja atraente, sr. Dines, isso não justifica assacar contra mim uma acusação tão canalha, tão vil quanto a produzida.
Na verdade, sr. Dines, eu fiz uma referência aos judeus em meu texto. Eu fiz uma referência e uma reverência a uma judia cuja coragem e desassombro sempre me cativou: Rosa Luxemburgo. Como outras heroínas judias da Bíblia, essa também, sem medir consequências, impetuosa, generosa, lança-se com bravura e decisão à insurreição. Porque ela sabia que era preciso, urgente, inadiável antecipar-se ao cabo-pintor psicopata antes que a direita facínora canalizasse o descontentamento popular com o diktat de Versalhes e fizesse ressurgir o militarismo alemão, com as consequências aterr. (ilegível na transcrição).
E também afirmei (foi outra coisa que o senhor distorceu, Alberto) que os social-democratas, os socialistas e os liberais, incluindo aqui a direita católica, assistiram impassíveis (ou mesmo contribuiram) com o massacre dos espartaquistas de Rosa Luxemburgo e, com isso, a Alemanha viu desaparecer, em um banho de sangue, a única força capaz de deter Hitler.
Foi nesse contexto, sr. Dines, que fiz referência aos socialistas louros, porque muitos dos nossos, hoje (ou já saíram do PDT?) socialistas morenos também foram complacentes com a ditadura. Também foi nesse contexto que fiz alusão aos liberais (os da Alemanha, indulgentes com o ascenso nazista; e os daqui, ativos participantes de todas as quarteladas tupiniquins, com as dignas exceções de um Sobral Pinto, por exemplo).
Em tempo, sr. Dines, eu não o classifiquei como liberal, social-democrata ou socialista. Por que esse açodamento em assumir tudo pelos outros? Faz parte do contrato? E não se dê tanta importância, Alberto, dizendo que o senhor transformou-se no meu bode expiatório. Não os tenho e, caso os tivesse, escolheria com mais critério.
No final do texto volta-me o asco. Que canalhice imperdoável a sua, sr. Dines, essa solerte tentativa de me acusar de um preconceito tão monstruoso. E novamente confesso, Alberto, só escrevo em reverência aos tantos judeus com quem sempre convivi e que estiveram comigo na Prefeitura de Curitiba e no Governo do Paraná, assim como em honra de minha antiga ascendência.
Arrematando: Alberto, os meus textos e meus discursos, faço-os eu mesmo. Ao contrário de Dines, o psicógrafo, que escreve por ação de inspirações alheias e parece hoje dominado pela psicolepsia.
- ROBERTO REQUIÃO é senador





