Brasília - Após conseguir, com apoio do PT e da sua tropa de choque, suspender a reunião do Conselho de Ética que analisaria o parecer preliminar pela admissibilidade do pedido de cassação do mandato do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o peemedebista manobrou mais uma vez e cancelou, já no plenário, a sessão ocorrida na manhã de ontem. Após uma guerra de questões de ordem, o segundo secretário, Felipe Bornier (PSD-RJ), para quem Cunha passou a presidência, acatou os argumentos dos aliados do peemedebista assim que começaram as discussões acerca do Conselho. As alegações giraram em torno de descumprimentos de questões regimentais, todas já alegadas durante a reunião da comissão julgadora.
Mesmo sem integrar a comissão julgadora, a tropa de choque do peemedebista compareceu em peso à sessão para derrubar a sessão. Sem registrar presença, um dos mais fiéis escudeiros de Cunha, André Moura (PSC-SE), pediu o encerramento da sessão antes mesmo que ela fosse aberta alegando falta de quórum. Com base no artigo 79 do Regimento Interno, alegou que, passados 30 minutos do horário marcado para o início dos trabalhos do Conselho, o presidente deveria declarar que não haveria quórum.
Como informou a "Folha de S.Paulo", a sessão de ontem serviu como um teste de fidelidade dos membros do Conselho que os aliados de Cunha acreditam estar ao lado dele no caso. A orientação era esvaziar a reunião, o que ocorreu.
Em um acordo de bastidor que envolve o congelamento dos pedidos de impeachment da presidente Dilma Rousseff, o PT cumpriu com a sinalização dada na quarta (18) de que ajudaria Cunha a protelar seu processo de cassação.
Na sessão de ontem de manhã, nenhum petista registrou presença até a abertura dos trabalhos. Em seguida, chegaram Assis Carvalho (PT-PI), que é suplente, e Zé Geraldo (PT-PA). Eles, contudo, acompanharam a reunião em silêncio.

SEM MANOBRA


Eduardo Cunha negou ter feito qualquer tipo de manobra. O peemedebista explicou que decidiu suspender o cancelamento da sessão do Conselho de Ética, determinado pelo segundo secretário da Casa, Felipe Bournier (PSD-RJ), quando este presidia parte da sessão de plenário, para mostrar que não havia nenhuma interferência sua na decisão tomada pelo colega. "Simbolicamente, para mostrar que não tinha nenhuma interferência, eu decidi suspender. Depois o secretário da Mesa ou outra pessoa da Mesa poderá decidir, por escrito, sobre aquilo que ele entendeu do pedido", afirmou. Cunha reverteu a questão após a pressão feita até mesmo por antigos aliados, como os líderes do DEM e do PSDB, Mendonça Filho (PE), e Nilson Leitão (MT), que foram à tribuna anunciar obstrução a eventuais votações e pedir que Cunha revertesse a decisão de cancelar os trabalhos do Conselho. Após duas horas tumultuadas, mais de 50 deputados de diversos partidos, inclusive do PT, deixaram a sessão e saíram pelos corredores da Casa aos gritos de "Fora Cunha", rumo ao plenário para dar continuidade à reunião do Conselho. Questionado se sentiu-se constrangido com a manifestação dos colegas, Cunha afirmou que a pressão não irá mudar seu comportamento. "Eu não vou me constranger por um processo que é político por aqueles que eventualmente façam oposição ali. Não vou me constranger por isso. Já estou vivenciando esse processo há algum tempo e nada disso vai mudar meu comportamento", disse.

AMEAÇAS

Relator do processo de cassação de Eduardo Cunha, o deputado Fausto Pinato (PRB-SP) avisou à cúpula do Conselho de Ética que sofreu uma ameaça. O fato foi anunciado ontem pelo presidente do conselho, deputado José Carlos Araújo (PSD-BA), e explicado pelo vice-presidente do conselho, deputado Sandro Alex (PPS-PR). Procurado pela reportagem, Pinato disse que não queria falar sobre o assunto. Sandro Alex solicitou que a Câmara providencie reforço na segurança de Pinato e de sua família.

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