Com 1%, Joice quer resgatar eleitores de 2018 com propostas bolsonaristas


CAROLINA LINHARES
CAROLINA LINHARES

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) - "Muitos têm pedido perdão. Dizem: agora eu vejo que você está certa. O eleitor está acordando. Mesmo o eleitor que ainda está cego por uma paixão e por uma idolatria vai entender o que é melhor para São Paulo", diz Joice Hasselmann (PSL).

É esse tipo de mensagem que faz a deputada federal e candidata à prefeitura acreditar que pode sair do isolamento em que se encontra.

Com o segundo maior fundo eleitoral e o quarto maior tempo de TV (1min4s), o que falta a Joice são eleitores. A candidata do PSL pontuou 1% nas duas pesquisas Datafolha, de 24 de setembro e 8 de outubro.



Isso não foi um problema em 2018, quando a jornalista teve a segunda maior votação para a Câmara dos Deputados --com 1.078.666 votos, só ficou atrás de Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que obteve 1,8 milhão.

O que mudou de lá para cá foi o rompimento de Joice com os dois padrinhos da última eleição, o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador João Doria (PSDB), à época unidos por ela mesma sob o slogan "BolsoDoria".

Com a pecha de traidora na direita e rechaçada pela esquerda, Joice vê espaço para crescer entre aqueles que não a conhecem (51% dos paulistanos, segundo o Datafolha) e traça estratégias para recuperar seu eleitor de 2018.

A tarefa não será fácil. Alvo de bolsonaristas, sua rejeição, medida pelo Datafolha, é, ao lado da do prefeito Bruno Covas (PSDB), a maior entre os candidatos: 31%.

Sua campanha quer mostrar que a deputada segue vinculada à agenda liberal na economia e conservadora nos costumes. Para os aliados de Joice, não importa a fidelidade às figuras de Bolsonaro e Doria, mas sua coerência em defender as ideias do eleitor paulistano que, em 2016 ao eleger o tucano e em 2018 ao eleger o presidente, quis um rompimento com a política tradicional e uma virada à direita.

"O eleitor de bem, gostando ou não de mim, não vai ter muita opção. Muita gente que torce o nariz pra mim, quando chegar na urna, vai apertar 17", diz a deputada.

A candidata afirma que os eleitores irão entender que ela manteve a coerência. "Eu não saí da minha pauta, quem saiu foram eles. Tanto Bolsonaro quanto Doria."

"Eu não rompi com Bolsonaro. Numa briga, por conta de um filho bandido, outro malandro e outro louco, ele rompeu comigo. E Doria foi eleito como alguém liberal e ajudou Bruno a quebrar a economia em São Paulo", completa.

Minimizadas por Joice, as pesquisas não trazem só más notícias. A chave para escapar da contradição de, segundo seus aliados, representar a agenda do eleitor paulistano, mas não ter o seu voto, está na rejeição a Doria e Bolsonaro.

De acordo com a pesquisa Datafolha divulgada em 24 de setembro, Bolsonaro é rejeitado por 46% dos paulistanos, enquanto Doria tem desaprovação de 39%.

Em 2016, Doria foi eleito prefeito no primeiro turno, com 53,3%. Sua votação para governador, em 2018, caiu na cidade para 41,9%. Já Bolsonaro teve, no segundo turno de 2018, o voto de 60% dos paulistanos.

Na avaliação dos aliados de Joice, a rejeição a ambos se dá pela frustração com promessas não cumpridas.

Seguindo essa lógica, a de putada resgata em sua campanha aspectos relacionados a Bolsonaro, como defesa de armas, da religião e da família e falas contra o comunismo e o petismo --ela vê chances de vitória de Guilherme Boulos (PSOL) e diz ser a única que pode impedir isso.

No debate da Band, em 1º de outubro, a candidata disse ter brigado com os filhos de Bolsonaro --não com o pai. Estrategistas da campanha negam ter havido ali um aceno.

A campanha da candidata, porém, é repleta de elementos caros ao bolsonarismo. Só na semana passada, Joice postou fotos em reunião com militares do Corpo de Bombeiros e praticando tiro esportivo, "uma de suas paixões".

À Folha a candidata diz que não houve estratégia eleitoral e que recorreu às armas para aliviar seu estresse. Seus companheiros na ocasião, contudo, eram o seu vice, Ivan Sayeg (PSL), e um candidato a vereador, Sargento Gledson.

Compromissos religiosos também estão na sua agenda. Joice escalou um pastor para ser coordenador evangélico da campanha.

Outro ponto que busca cativar o eleitor verde e amarelo da avenida Paulista é a defesa da Lava Jato, alvo de desmonte pelo presidente e que atingiu tucanos como Geraldo Alckmin e José Serra. Nesse campo, Joice tem um trunfo: o ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, de quem diz ser amiga.

O ex-secretário da Receita Federal Marcos Cintra e sua atuação para a aprovação da reforma da Previdência são suas pontes com o liberalismo econômico.

Se o presidente tinha pão com leite condensado, Joice deixa o eleitor participar de sua intimidade ao falar de sua dieta, ensinar receitas em sua cozinha e exibir seus gatos.

"Meninas, minha fórmula do emagrecimento e juventude. Não largo meu caldo nunca mais", posta ao fazer propaganda de seu novo canal no Instagram, o Bem Estar com Joice. Depois de sofrer ataques por causa de seu peso, vindos inclusive de Eduardo Bolsonaro, Joice quer usar a nova silhueta como uma história de superação.

Ela diz que a exposição da intimidade não é estratégia eleitoral, mas uma forma de dividir sua experiência com o machismo com outras mulheres que passam por isso.

"Fui muito humilhada por esses bandidos que cercam a tropa do Palácio do Planalto e os filhos do presidente porque eu engordei. Eu engordei porque eu estava ajudando eles. Eu era o cinto de castidade do governo, foi só eu sair que o centrão estuprou o governo. Essa pressão eu aguentava sozinha e me fez engordar 20 quilos."

O conflito com bolsonaristas é tão evidente que parte dos xingamentos foi adotado pelo marketing da campanha, que usa imagens de Peppa Pig e Miss Piggy no horário eleitoral.

Para adversários de Joice, ela ainda conserva ligações com seu outro ex-padrinho, Doria. Seu marqueteiro, Daniel Braga, por exemplo, atuou para o tucano em 2016 e 2018. A candidata chegou a ser cotada como vice de Covas e o visitou no hospital, em ação patrocinada pelo governador.

Sua campanha, porém, tem feito o esforço de associá-la às bandeiras da direita ao mesmo tempo em que a desvencilha de Doria, cujo candidato é Covas, e de Bolsonaro, cujo candidato é Celso Russomanno (Republicanos).

"Ela é a única com DNA de direita raiz", afirma Braga. O título é reivindicado também por Filipe Sabará (Novo) e por Arthur do Val (Patriota), que coincidem com Joice no liberalismo e no lavajatismo.



Para o marqueteiro, Joice tem o perfil do "João trabalhador", mote que elegeu Doria em 2016. "Ela tem energia, determinação, é dinâmica, incansável e quer mudança."

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