Brasília - A estampa e o discurso do ex-presidente Fernando Collor de Mello, eleito senador por Alagoas pelo inexpressivo PRTB, agora são de bom moço. Símbolo da época em que ele governou o País, até a gravata Hermès foi retirada do vestuário. O novo modelito é mais despojado. Nas conversas, trocou os ataques virulentos e ressentidos contra adversários por declarações que buscam o diálogo e o entendimento. Até o uísque Logan foi substituído pela cachaça e, ao invés de fixar residência na Casa da Dinda como fez nos tempos de ex-presidente, já avisou que ocupará um apartamento funcional.
A decisão é surpreendente. Quando presidente, Collor vendeu de forma furiosa os imóveis da União. A justificativa era a de que casas e apartamentos funcionais eram moradias de marajás, termo usado para atacar funcionários públicos. Para dar o bom exemplo, Collor recusou-se a morar no Palácio da Alvorada e instalou-se na Casa da Dinda, uma residência no abastado Setor de Mansões do Lago Norte, com cascatas artificiais e jardins projetados por paisagistas. Ali, carimbou o seu impeachment: o Fiat Elba, pago pelo esquema de cheques fantasmas de PC Farias, foi fotografado na saída da mansão.
Collor está se reinventando. Deseja projetar a imagem de político maduro, muito diferente do ex-presidente que se proclamava caçador de marajás e prometia derrotar a inflação em uma única batalha e com apenas um tiro. ''Estou de espírito desarmado. Preciso restaurar laços e estabelecer vínculos de amizade'', confidenciou a um amigo logo após a confirmação de sua eleição. Em relação ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, não apenas o defendeu publicamente, como já mandou o recado de que votará propostas governistas em benefício do povo, ou como se dizia na época em que governou o País, dos descamisados.
Passados 14 anos do impeachment, Collor e outro desafeto, o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL) prometem retomar a velha amizade e o próprio Renan já diz não ver dificuldade em conviver com o ex-presidente. ''A presença de Collor no Senado será interessante'', previu.
Quem priva da intimidade de Collor observa que desde sua separação de Rosane, ele tem se mostrado mais tranquilo. Parte dessa mudança é atribuída ao casamento com a jovem Caroline Medeiros. ''Ela é a mulher da minha vida'', repete. Talvez o sofrimento, causado pelo afastamento da política, o tenha ajudado a amadurecer. Mas só o tempo, que é o senhor da razão, poderá dizer se a mudança é real ou mais uma maquiagem.

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