Coligações obedecem a interesses locais
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sábado, 04 de outubro de 2008
Catarina Scortecci<br>Equipe da Folha 
Curitiba - Em tese, os partidos políticos hoje funcionam mais ou menos assim: Na esfera nacional, o PSDB e o DEM são oposição ao PT do presidente Lula. No Paraná, metade dos tucanos apóia a gestão do PMDB do governador Requião, sigla que anda com Lula, mas que já esteve também ao lado do PSDB do ex-presidente FHC. No Estado, o PDT de Osmar Dias, que integra a base de apoio do governo federal em Brasília, é adversário do PMDB do governador Requião, aliado com o PT. Explícitas em ano eleitoral, as afinidades partidárias nem sempre têm lógica ao eleitor comum.
Na prática, as uniões de legendas nas diferentes esferas dependem mais da configuração política local, e independem de ideologia partidária - levando em conta sua existência. A opinião é do cientista político da Universidade de Brasília (UnB) Octaciano Nogueira Filho. ''Não temos simetria porque há interesses divergentes. O cenário político e econômico do Estado de Roraima, por exemplo, não é o mesmo do Estado de São Paulo. São outras escalas'', afirmou ele.
Segundo Nogueira Filho, a verticalização no Brasil, discutida desde 2002, ''é impossível''. A regra obriga os partidos políticos a reproduzirem, nas esferas estaduais, as mesmas alianças feitas em âmbito nacional. ''No quadro eleitoral brasileiro, os interesses locais não permitem a regra, principalmente nas eleições municipais''. O motivo, segundo ele, é um só: ''Falta de ideologia dos partidos políticos. Não há orientação política. E não é de hoje que as coligações de todo tipo ocorrem nas eleições''.
Um levantamento realizado pela Reportagem em torno das coligações estabelecidas na Região Metropolitana de Curitiba para a disputa majoritária revela que uniões nada coerentes em comparação ao cenário nacional e estadual são maioria entre os 26 municípios. Em Almirante Tamandaré, por exemplo, o PMDB está com DEM, PPS, PT e PCdoB. Também fazem parte da mesma coligação o PP, PTB, PTdoB, PSC, PSL, PTN, PHS, PSDC, PMN, PV, PRTB, PTC e PCB. Já em Campina Grande do Sul, por exemplo, o PSDB está com PMDB e DEM. Legendas como o PTB, PSL, PSC, PHS, PSDC, PV e PCdoB também fazem parte da coligação.
Nogueira Filho afirma que a quantidade de siglas acaba facilitando a união, no município, de partidos políticos adversários nacionalmente. A solução para a ''mistura'' partidária, portanto, poderia estar na consolidação de uma regra que pudesse acabar, segundo ele, com ''legendas sem expressão''. Mas a 'cláusula de barreira', aprovada com a intenção de equilibrar as representações partidárias, nunca saiu de fato do papel.
''Tem gente que argumenta que a 'cláusula de barreira' é anti-democrática, mas não é assim. Não deveria ter direito à representação parlamentar aquela sigla que não atingisse um percentual mínimo de votos. É assim em outros Países que mantêm eleição proporcional'', argumenta ele. O cientista político lembra que a emenda constitucional número 11, que trata da ''cláusula de barreira'', foi aprovada em 1978, mas até hoje não foi aplicada.


